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terça-feira, 20 de outubro de 2015

COTA é pouco, vocês nos devem até a ALMA!

Esses dias tem circulado um vídeo, produzido por irmãs de luta, estudantes da USP de Ribeirão Preto. Visualize abaixo:


No vídeo, as irmãs falam abertamente sobre questões que norteiam a luta antirracista e, consequentemente, sobre a opressão e violência psíquica direta a qual homens e mulheres pretos e pretas são submetidos ao pisarem no “solo sagrado branco”, chamado sala de aula das Universidades brasileiras. O vídeo foi divulgado na página do Instituto Liberal de São Paulo, para que ali a imagem das jovens negras fosse “escrachada” e alvo de inúmeras ofensas.

https://www.facebook.com/institutoliberaldesaopaulo/videos/1905025343056276/

Este acontecimento se deu, devido ao cansaço da vivência de inúmeros níveis de violência racial que ocorrem deliberadamente na USP de Ribeirão Preto. Os alunos negros devidamente matriculados ali, vem sendo massacrados por mensagens nos banheiros, onde se lê frases como: “Fora Cotistas”, “Aqui é faculdade de gente inteligente e branca”, pichações racistas nos muros da instituição em questão e, isso vem sendo denunciado rotineiramente, sem que qualquer medida tenha sido tomada em relação a isso.







Um vídeo feito em Março deste ano, mostra nitidamente tentativas de cerceamento de fala. Alunos e alunas pretos/as pediam licença para levantarem essas questões numa aula, quando a professora dizia não poder ser feito daquela forma e sim, num dia com hora e data marcada, quando Um jovem branco, se manifestou proferindo inúmeras provocações, deboches propositais e maliciosos direcionadas aos jovens negros ali presente. Vale ressaltar que o jovem já estava gravando o vídeo sem autorização de qualquer pessoa ali presente. O vídeo foi divulgado Vlog Canal de Direita, também para que ali a imagem das jovens negras fosse “escrachada” e alvo de inúmeras ofensas.



No vídeo o jovem acusa os alunos negros de praticarem ‘vitimismos’ acerca de suas reivindicações, e insinuam que os mesmos não se esforçaram para ali estar: “é só estudar e passar”. O vídeo foi divulgado na página, onde visualizamos ofensas diretas ao movimento negro, às mulheres pretas que ali estavam e uma direta tentativa de deslegitimar a luta antirracista.

Houve também manifestação racista por parte do grupo feminista que se denomina Clube das Feministas, onde mulheres brancas, tomando posse de sua condição supremacista, tecem discursos munidos de intolerância e violência racial, conforme se lê no link abaixo:

https://www.facebook.com/clubedasfeministas/photos/a.1461801400785976.1073741828.1461726260793490/1500845450214904/?type=3&theater

Desde sempre, negros que conquistam seus espaços nas universidades, vem dando testemunho de como o convívio dentro das mesmas se torna  difícil, principalmente quando o posicionamento preto é evidente. Existe uma indignação visível tanto por parte das Universidades, quanto por parte dos alunos  no que diz respeito à decisão do Supremo Tribunal Federal que institucionalizou 20% das vagas nas Universidades Públicas através das Ações Afirmativas de Cotas para estudantes negros, mediante autodeclaração. Mesmo se tornado Lei, muitas Universidades não aderiram à mesma, e as que aderiram parecem não se importar com as inúmeras manifestações racistas que lá acontecem e que são interminavelmente denunciadas.

O que o branco puder fazer pra calar nossa voz, ele fará. Isso fica cada vez mais evidente, a medida em que vamos saindo do campo do medo da rejeição e passamos para o campo da ação, da noção de pertencimento do nosso próprio discurso, porque afinal das contas, somos nós quem sofremos racismo e não precisamos de porta-voz para que nossas dores sejam externadas.

Contudo, o direito a fala em espaços políticos vem sendo insistentemente coibida, em especial quando os discursos políticos pretos não são voltados a favorecer qualquer partido político, movimento socialista, ONG, ou o próprio espaço político. Racializar discurso vira em questão de segundos o maior crime do mundo, nos colocando na posição de criminosos, ao invés de vítimas, o que pra nós representa um misterioso retrocesso de nossas movimentações políticas, tal como era quando militantes negros eram obrigados a se declarar de esquerda para que seus discursos fossem ouvidos e tivessem legitimidade.

Consequentemente, um jovem branco, em meio a uma discussão na sala de aula provocada por ele, via deboches e provocações propositais e maliciosas direcionadas aos jovens negros ali presente, foi autor de um vídeo divulgado na página do Instituto Liberal de São Paulo. No vídeo o jovem acusa os alunos negros de praticarem vitimismos acerca de suas reivindicações, e insinuam que os mesmos não se esforçaram para ali estar: “é só estudar e passar”. O vídeo foi divulgado na página, onde visualizamos ofensas diretas ao movimento negro, às mulheres pretas que ali estavam e uma direta tentativa de deslegitimar a luta antirracista.

https://www.facebook.com/institutoliberaldesaopaulo/videos/1905025343056276/?hc_location=ufi

Imagens vem sendo vinculadas às moças na internet, por meio de páginas racistas, com o intuito também de promover constrangimento. Insultos e todas as formas de violência contra pretas e pretos são expostos nos comentários, ratificando o racismo institucional presente no cotidiano de indivíduos pretos.


https://www.facebook.com/batmandosprotestos/photos/a.287868228049262.1073741829.283972271772191/532289050273844/?type=3

A Preta&Gorda entende que todas essas manifestações são explicitamente racistas. Entendemos também, que todas as metodologias de constrangimento utilizadas por todas as pessoas responsáveis desde alunos até os responsáveis das páginas e comentaristas dos posts, bem como as ações de exposição ao qual a irmã Poliana Kamalu vem sendo submetida, com sua foto em traje de banho virando ‘meme’ na internet, com sua identidade, local de trabalho, residência sendo divulgados;  reiteram todo o discurso o qual temos levantado por mais quinhentos anos, anunciando a supremacia branca, cuja intolerância e repulsa ao preto e tudo o que oriunda dele, lhes dá a impressão de que possuem o direito de nos expor fisicamente, expor nossa intimidade, nos matar sem maiores consequências, determinar que fala devemos ter em espaços políticos, como nos devemos portar, o que devemos ou não defender e como devemos defender.

Só que não precisamos dessas determinações. Sabemos como lutar nossa luta, e se existem movimentações contrárias à maneira a qual reivindicamos, significa que o racismo, mesmo com a branquitude afirmando o contrário, se faz presente em nosso meio, impondo que pretas e pretos se prostrem à subserviência branca e seus direcionamentos de vida, os quais não nos favorecem em nenhuma medida.

Sobre o vitimismo, por exemplo, precisamos ressaltar que, a todos os países que foram vítimas de violência em decorrência de guerra, etc., foi dado o direito de reparação. Os países envolvidos com genocídio em massa, estupro de mulheres, fome e miséria de uma camada da população, reconheceu que todos esses atos causaram atraso no desenvolvimento deste povo e assim o repararam com justiça. O único povo que não teve esse direito e não tem até hoje é o povo preto.

Ainda existem favelas e comunidades onde a maior parte dos habitantes são homens e mulheres pretos e pretas. A maior parte dos cargos ocupados em serviços subalternos de limpeza de instituições são ocupados por pretos e pretas. Os garis em sua maioria (senão totalidade) são pretos e pretas. A parcela pobre da sociedade é composta por pretos e pretas. As pessoas que vivem nas ruas e que são vitimas das drogas, são em sua maioria pretos e pretas. Isso não é vitimismo.

O número de estudantes universitários negros aumentou consideravelmente a partir das Ações Afirmativas de Cotas, não porque de repente estas ações ascenderam em nós a vontade de estudar e obter ascensão profissional e financeira. A vontade sempre existiu. Foi porque a realidade de vida de pretos e pretas é completamente diferente dos ‘afortunados’ brancos universitários. Não nos foi dada a  oportunidade de sequer escolhermos trabalhar ou estudar. Não vamos aqui estender o discurso porque o intuito não é doutrinar branco. É demonstrar aqui a nossa total repulsa a todas essas expressões de intolerância, ódio racial que infelizmente ainda passam impunemente nas instituições de ensino e, em consequência, diante dos olhos da nossa sociedade.

Vamos enegrecer que  ressaltar viagens, escolas particulares de uma pessoa preta não invalidam em momento algum a luta de inúmeras mulheres e homens que sequer sabem ainda ler e escrever neste país, que sim, limpam a latrina das universidades e grandes indústrias, que são invisíveis por toda a elite branca que passam por pessoas que estão encerando o chão que eles pisam, sem se dar conta de que alguém está ali fazendo aquele serviço. Os pedreiros/as, carpinteiros/as, garis, faxineiros/as que trabalham muita das vezes mais de doze horas por dia, emendam dois empregos pra poder dar conta de sustentar a família, nunca tiveram um momento da vida pra respirar e sonhar com a possibilidade de ingressar numa Universidade.

Agradecemos aqui a dedicação e força dos nossos antepassados militantes do Movimento Negro que deram seu sangue para que hoje a gente pudesse alcançar, mesmo sendo ainda uma fatia mínima da população preta, ascensão profissional e financeira. Agradecemos a nossa ancestralidade preta por através de muito sangue, muito suor, muito choro, por tantas mortes, por tanto sofrimento ter trilhado um caminho de vitória pro nosso povo. Estamos colhendo aos poucos. E nem por isso, mesmo sendo uma fatia mínima da população preta, os pretos e pretas em ascensão, jamais virarão seus rostos para os crimes de racismo, xenofobia e toda ação genocida que vem sendo praticada por brancos desde que decidiram que não precisavam mais de nós.

Não adianta expor escolaridade, viagens, etc. Nós pretos sabemos de onde viemos e dos espinhos e lágrimas que caíram dos nossos olhos para que chegássemos aonde estamos. E não vamos parar por aqui. Ainda existe muita coisa a ser feita, muita gente pra ser erguida.

Vivemos num país tão racista, que dói pra toda uma branquitude descendente de escravocratas, que jovens negros estejam lado a lado com eles, estudando e se formando futuros profissionais. Isso lembra muito aquela época em que os antepassados escravistas proibiam que crianças pretas frequentassem escolas e a Frente Negra viabilizou uma escola só para negros, mostrando que nós somos capazes.

Cotas é só o começo. Vocês nos devem até a alma!

Reparações Já!

Por menos que conte a História, não te esqueço meu povo: Se Palmares não vive mais, faremos Palmares de novo!”

Preta&Gorda.