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domingo, 8 de novembro de 2015

Eu, preta e gorda.


Por: Vitoria de Moura.​



Maçante. A batalha travada entre a mulher negra e sua auto estima dói, fere, traumatiza. Se a preta for gorda então, o fardo entrecorre mais pesado, extenuante. Desde garotas odiamos nossos corpos, nossos cabelos naturais, nossos traços, nossa pele preta. O espelho reflete a imagem do inimigo. Maldito padrão, malditas revistas, malditos programas e filmes! Jogadores de pólvora, imundos, esfregando a todo instante em minha face que não estou de acordo com a branca magra do anúncio. Bomba relógio implantada nos meus pensamentos, a autodestruição é considera como única opção. Aos 11 anos relaxo o cabelo, aos 13 começo uma dieta dita como milagrosa, aos 15 não me reconheço... Aos 18 me procuro... Faço o caminho reverso, volto as raízes, desinfeto o padrão eurocêntrico de minhas veias, aqui é sangue preto, sim senhor! Orgulho borbulhante, mente inventiva, tudo correndo as mil maravilhas!

...ou não. Lembro-me dos motivos que me fizeram mudar, a sociedade não gosta de mim assim, preta e gorda. Incita-me a mutilação, a apagar quem sou. O amor não gosta de mim assim. Amor próprio é o único com que tenho contato. Aguardo com ansiedade o dia em que serei correspondida afetivamente e não sexualmente somente, em que pararei de ser preterida. Espero o dia por mim e pelas minhas irmãs de luta, pois enxergo as cicatrizes por baixo dos sorrisos formados nos rostos negros. Chega de parceiros (as) que nos escolhem puramente para alimentar-mos seus fetiches e desejos carnais, quando chegará a nossa vez de escolher? O seu “adora uma mulata/ cheinha/ fofinha/ morena” não enche os meus olhos, pelo contrário, eufemismo barato, me enoja, me repele. Eu não sou “umazinha” apenas para te aliviar. Eu sou mulher, preta e gorda. Eu choro, rio, grito, amo, sinto, sofro, luto, e, sobretudo, sobrevivo.




Vitoria de Moura, 19 anos, mais uma carioca que acredita que mora na melhor cidade do mundo. Apesar da idade já desprendeu-se dos preceitos racistas nos quais fora exposta, sempre querendo aprender e desconstruir. Conquistando seu espaço aos poucos em um meio onde querem que ela seja invisível. Porém meus amigos, o buraco é muito mais embaixo.