Racismo na loja Le Biscuit: não há mal entendido


Fonte: Pragmatismo Político.

Racismo não é “mal entendido”, é crime: O que o ‘caso Le Biscuit’ tem a nos ensinar? Irmãs foram vitimas de preconceito racial quando olhavam as prateleiras de artigos da loja LE BISCUIT. Áurea e Dulce foram acusadas de roubo.

Racismo não é “mal entendido”, é crime! Antes mesmo de sair uma ‘nota oficial’ da Le Biscuit, possivelmente justificando o injustificável, praxe comum em casos de acusação de racismo, é preciso que se antecipe a exclamação inicial. Racismo é crime, inafiançável, não é mal entendido.

O caso das irmãs Áurea e Dulce Santos – uma delas, ironicamente, com o nome da lei que “aboliu” a escravatura no Brasil, que afirmam ter sofrido preconceito racial dentro da loja Le Biscuit de Camaçari, por uma funcionária do estabelecimento, é revelador deste quadro que muitos negam, dizem que é “histeria” de “militantes desocupados”: ainda há racismo no país. Testemunhas relatam que as irmãs foram abordadas por uma funcionária da Le Biscuit, que solicitou que as duas a seguissem até um departamento da loja e abrissem a bolsa.

Ofendidas, as duas se encaminharam até a porta central da loja e retiraram todos os pertences que continham dentro da bolsa. Ao retirarem tudo, foi constatado por todos os presentes que não havia acontecido roubo algum.

É comum presenciarmos relatos como este. O cidadão ou cidadã é negro, está dentro de um determinado estabelecimento, alguém desconfia e logo o tal é interpelado, de forma discriminatória, como se a cor da pele fosse um “atestado de culpa”. Se deram mal com as irmãs Santos.

Caso Le Biscuit: Racismo é crime, inafiançável, não é mal entendido (Foto: Divulgação)

Muitos destes cidadãos brasileiros, maioria populacional segundo o IBGE – os negros correspondem a mais da metade da nação -, ficam reféns desta prática comum, de serem acusados de “roubo”, violados dos seus direitos constitucionais de defesa, conduzidos à “departamentos da loja” para serem revistados e se calam.

As irmãs Santos não, escancararam o crime que sofriam, chamaram a atenção e devem ter constrangido a tal funcionária que, certamente, não tomara aquela decisão só.

A polícia foi chamada – outro fato importante, que merece ser seguido todas as vezes que alguém se sentir vítima de racismo. Insisto, ele é crime! Quem incriminava injustamente, foi incriminado, desnudado.

Tem que ser assim, o preconceito precisa ser denunciado, revelado, pois ele mostra a face de uma sociedade que posa de ‘igualitária’, mas que esconde sua torpe herança do período colonial e pós-colonial.

A ‘Casa Grande’ sucumbiu ante a ‘Senzala’. Como se as irmãs Santos tivessem personificado o heroico Zumbi dos Palmares naquele momento.


Vão ter que dar explicações na Comissão da Promoção da Igualdade Racial e Políticas Públicas para as Mulheres (COPROME), da Câmara Municipal – aqui cabe, em primeiro ato, um elogio à célere ação do vereador José Marcelino (PT); e em segundo, a observação de que o nobre vereador precisa acompanhar melhor os veículos de comunicação locais. Que publicaram sim (pelo menos três deles) o evento imediatamente à sua ocorrência -. A rapidez na apuração dos fatos é outra questão de relevância no combate ao racismo, por parte dos órgãos competentes.
 Certamente deverão, os protagonistas do ato, ter que se acertarem com a Justiça também, já que as irmãs foram orientadas a darem entrada em processo contra o estabelecimento comercial.
E antes que algum defensor enrustido do racismo se apresse em dizer “ah, mas os negros são preconceituosos também”, me antecipo em reafirmar que todos, negros, brancos, índios e ‘derivados’, fazemos parte de uma sociedade excludente, racista, preconceituosa, que nossa educação foi e é forjada seguindo este molde, ranço macabro do período escravista vivido no país.

Claro que isto não justifica sairmos cometendo atos racistas a torto e a direito. Não. Pelo contrário, a herança do preconceito racial, que paira no Brasil, deve ser vista com constrangimento, para fomentar o desejo individual e também coletivo de combatê-lo.

Como a Justiça deve ser justa – com o perdão do trocadinho infame -, a Le Biscuit tem o direito de se defender. Mas, sobretudo, como toda instituição que se preze – e acredito este ser o caso -, tem o dever de combater quaisquer práticas que afrontem a dignidade e o direito de qualquer cidadão ou cidadã, ainda mais se estes são seus clientes.


Que este episódio sirva de lição e alerta. Lição de quê a pele preta não é sinônimo de banditismo, que o racismo não é mal-entendido, que o povo negro, igual cidadão, deve ser respeitado. E de alerta também, para que outras irmãs ou irmãos ‘Santos’, ‘Silva’, etc., botem sempre a “boca no trombone”, escancarem sempre que qualquer tentativa de preconceito racial venha lhes vitimar.

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