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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Shakespeare e a História da África do Sul por trás de ‘O Rei Leão’




A expressão ‘mega musical’ é a mais comumente usada para descrever o espetáculo mais aguardado pelos brasileiros em 2013: O Rei Leão. São 53 atores no elenco, um palco com mais de 10 toneladas e inclinação de meio metro, mais de 40 cenários, cerca de 200 bonecos animados, incontáveis peças de figurino, efeitos especiais e um orçamento de R$50 milhões para a produção brasileira.  Ao redor do mundo, são 19 produções que acumulam uma bilheteria estipulada em quase U$5 bilhões e lucro de quase U$854 milhões desde sua estréia, há pouco mais de 15 anos, tornando-se o musical mais valioso do mundo.

Mas isso são apenas números e estatísticas recentes. Por maiores que tenham sido os investimentos iniciais, era impossível medir quanto ou se a versão para os palcos agradaria. O que garantiria o sucesso do musical? Para a grande maioria, a resposta seria a própria Disney, líder do mercado de filmes de animação e entretenimento e uma das principais produtoras dos chamados family musicals (musicais para toda a família). Para outros, o sucesso seria creditado na trilha sonora de Elton John e Tim Rice e na trilha incidental de Hans Zimmer, com canções que já haviam marcado toda uma geração. E para uma outra pequena parte, o sucesso seria creditado ao fato de os personagens do roteiro de Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton serem animais antropomórficos, ou seja, que se expressam como seres humanos.

A verdade é que todas essas teorias contribuíram fortemente para o sucesso do filme, lançado em 1994, mas que, conforme divulgado pelos próprios produtores do musical, não garantiriam previamente o sucesso da transição para os palcos. A forte história, baseada vagamente na obra de William Shakespeare e nos contos bíblicos de José e Moisés, talvez não tivesse o mesmo impacto nos palcos; e a ideia de retratar os leões e demais animais da savana africana com figurinos completos, remeteria mais aos shows com patinação na gelo (Conhecidos como Disney On Ice) do que com um verdadeiro musical da Broadway. Eis que dois nomes se destacam nessa transição: Julie Taymor (a diretora e criadora do musical) e Lebo M. (compositor sul-africano).

Rafiki na abertura do espetáculo Foto: João Caldas ©Disney

A CULTURA ORIENTAL E DIREÇÃO CINEMATOGRÁFICA

Julie Taymor, consagrada diretora americana, com um invejável currículo que transita especialmente por óperas e filmes de Hollywood, foi chamada e inverteu esse jogo, apostando no seu talento nato em inovar. O projeto, que mais parecia uma perda de tempo, energia e dinheiro, começava a ganhar os olhos, o coração e todos os investimentos da Disney. A história foi aprofundada com elementos da cultura oriental de países como Japão e Indonésia (em especial das Ilhas de Bali e Java), por onde Julie transitou por cerca de 5 anos. E foi na própria Indonésia que ela criou sua companhia de dança e máscara, juntando elementos das danças balinesas, javanesas e o teatro de bonecos japonês. A diretora foi mais influenciada pela própria cultura africana na concepção das máscaras do que na aparência dos personagens da animação.

Julie chegou ao projeto com ideias divergentes do resto da equipe, afirmando categoricamente que, apesar de ser uma história contada com animais, era uma fábula humana, portanto, os atores deveriam ser mostrados e não deveriam estar escondidos atrás de figurinos de pelúcia. Se nos filmes, os espectadores assistiam determinados efeitos e se perguntavam como eles eram feitos, com O Rei Leão, Julie se baseou em explicar o ‘como’ e fez questão de que cabos, fios e todo o maquinário fossem revelados junto com a figura humana, enaltecendo o árduo trabalho de um ator que também se torna um manipulador de bonecos e dá vida ao mesmo personagem de duas formas: a humana e a mecânica. A ideia de se enxergar o ator através de figurinos, bonecos e máscaras é clara para Julie: “Quando os efeitos especiais estão escondidos, o público se torna passivo. Mas revelando o trabalho interno para se criar essa mágica, O Rei Leão convida seu público a usar a imaginação ativamente e, com ela, preencher essas lacunas”. Para a produção brasileira, o elenco contou com a experiência da carioca Marta Cotrim, que deu aulas de dança balinesa e javanesa, aliando esses movimentos à manipulação de bonecos e ao uso de máscaras mecânicas e estáticas.

Além da criação de figurinos, bonecos e máscaras, Julie triunfou na direção original do musical, que, apesar de revelar seus segredos de manipulação, é bastante cinematográfico em sua concepção de cenas. “O público sempre sabe para onde olhar, mesmo que várias coisas estejam acontecendo simultaneamente no palco. A direção é cinematográfica. É como pegar a magia da tela grande e permitir ao público tocá-la.”, afirma John Stefaniuk, diretor associado da produção.

Tiago Barbosa, o Simba brasileiro Foto: João Caldas ©Disney


SHAKESPEARE E O REI LEÃO

Com isso, a história também foi aprofundada. Se antes, a obra era comparada aos contos bíblicos de José e Moisés com uma pitada de Hamlet de Shakespeare, a versão para os palcos ganhou ainda mais proximidade com essa e outras obras do dramaturgo britânico, que viveu há praticamente meio milênio antes da criação de O Rei Leão. Especialistas que enxergavam o príncipe da Dinamarca (Hamlet) em Simba na animação, puderam encontrar elementos dramatúrgicos que também pareciam retirados de obras como Ricardo III, Macbeth (Principalmente o vilão Scar), O Rei Lear, Cymbeline e a primeira parte de Henry IV. Apesar de nunca terem assumido publicamente a influência da obra de Shakespeare no roteiro do filme animado, fontes afirmam que os autores da trama comumente se referiam a obra como Bamblet, por sua similaridade com Bambi (outra fábula de sucesso que ganhou as telonas pela mãos da Disney) e o clássico Hamlet.
Mas Julie, bastante experiente na direção de obras shakesperianas como A Megera Domada, A Tempestade e Titus Andronicus nunca escondeu a influência e, pelo contrário, abusou dela na concepção de O Rei Leão. As tragédias gregas que tanto influenciaram Shakespeare também são relembradas através dos números de ensemble com Rafiki (fazendo o papel do corifeu). O desenrolar da trama só alteraria uma coisa de sua maior influência: o final. Podemos então considerar O Rei Leão como uma tragédia, com elementos cômicos e um final de romance. Tantos aspectos, influências e referências poderiam facilmente cair na encheção de linguiça comumente vista em filmes infantis, porém esse é o erro mais visto na descrição da obra: O Rei Leão não é um musical infantil, e sim, um musical onde crianças e adultos recebem o mesmo conteúdo e permitem que sua própria imaginação e experiência terminem de digerir os valores abordados.

Mas engana-se quem pensa que as referências de O Rei Leão param por aí… Toda essa influência na trama abre ainda mais espaço para o maior pano de fundo da história: A África do Sul e o Apartheid.


 Leoa Nala Foto: João Caldas ©Disney


O APARTHEID 

Em Afrikaans, Apartheid significa ‘a situação de se estar à parte’ e para os sul africanos a ideia de serem excluídos de sua própria sociedade resultou em exílio, mortes, sofrimento e medo, mas jamais derrubou sua cultura, dividida em tribos com seus próprios dialetos e costumes. A segregação racial já tomava a África do Sul desde os tempos coloniais sob comando de forças holandesas e britânicas. No entanto, o Apartheid como política oficial foi introduzido nas eleições gerais de 1948. A nova legislação, comandada pelo Partido Nacional, dividia os habitantes em quatro grupos raciais: nativo, branco, ‘colorido’ e asiático. No geral, a legislação previa a redução dos direitos da grande maioria negra e a supremacia da minoria branca. Educação, assistência médica, praias, transporte, áreas residenciais e outros serviços e locais públicos foram segregados, muitas vezes, através de remoções forçadas. Apenas negros que serviam aos brancos tinham autorização para frequentar, com determinadas condições impostas, áreas ‘brancas’. Revoltas populares e protestos foram recebidos com perseguições e prisões e, quanto mais os grupos anti-apartheid se militarizavam, mais o governo respondia com repressão e violência. O clima de guerra perdurou durante os anos 50, 60, 70 e 80. Finalmente, em 1990, o então presidente F. W. de Klerk iniciou negociações para acabar com o regime do Apartheid, culminando em eleições democráticas multi-raciais, que elegeram em 1994, o presidente negro e líder da oposição Nelson Mandela. Apesar disso, os vestígios do regime ainda são encontrados pelo país.
E era o próprio Nelson Madela a maior inspiração de Lebo M., compositor sul africano, nascido em 1964 no Soweto (subúrbio de Joanesburgo e maior refúgio da população negra durante o Apartheid). Lebo M. é, sem dúvida, a força da cultura africana em O Rei Leão. Exilado de seu país em 1979, chegou aos Estados Unidos, onde anos mais tarde ganhou reconhecimento e prestígio, exaltando justamente a cultura do país que o havia renegado. Lebo M. foi indicado para fazer os arranjos vocais do desenho animado por Hans Zimmer, compositor da trilha incidental de O Rei Leão e com quem havia trabalho dois anos antes no filme The Power of One (O Poder de Um Jovem), que também explorava a Era do Apartheid na África do Sul. Na dublagem oficial em inglês, é possível ouvir a voz do próprio Lebo M. no famoso cântico que mistura os dialetos Zulu e Xhosa em Circle Of Life (Ciclo da Vida).

Com o sucesso da trilha do filme em 1994, a Walt Disney Records lançou em 1995, o CD Rhythm Of The Pride Lands, um espécie de sequência musical do filme, com composições que inspiraram a trilha original, mas que não entraram no projeto final. A maior parte das composições foi feita por Lebo M. e pelo produtor musical Jay Rifkin.

Quando chamada para o projeto do musical, a primeira iniciativa de Julie Taymor foi utilizar esse material de Lebo M. em sua versão para os palcos, pontuando a história com cânticos típicos e estabelecendo uma conexão mais profunda da trama com o Apartheid. Agora, o reinado do vilão Scar representava os anos obscuros da história sul africana, que conheceu a liberdade no exato ano de lançamento do filme (1994), estabelecendo um parâmetro com o final feliz da animação, onde Simba (Nelson Mandela) assume seu reino e o sol (liberdade) volta a raiar sobre a população.

De todas as músicas compostas por Lebo M., destaca-se One By One, entoada e cantada na abertura do segundo ato do musical (na versão original do musical [1997] era o próprio Lebo M. quem subia ao palco para executar a canção juntamente com outros sul africanos), quando a Terra dos Leões já está sob a ditadura de Scar. Originalmente, a canção foi gravada com aspectos de um hino militar e soava como uma música de protesto, já que seus versos em Zulu trazem afirmações como ‘Nós venceremos’, ‘Aguente firme, meu povo’, ‘Não perca a força’, ‘Sabemos quem somos’, ‘Confiamos em Deus’ e ‘Este sangue é do nosso povo, esta terra é do nosso povo e temos orgulho dela’. A canção exalta a união de todas as tribos do povo sul africano, com costumes, cultura e idiomas completamente diferentes, mas que tinham em comum o mesmo ideal: reconquistar seu direito básico em sua própria nação. E como uma forma de premonição, a música enaltece que se o povo massacrado se unir, a paz e a igualdade não tardarão a chegar.


O Ciclo da Vida Foto: João Caldas ©Disney


A CULTURA AFRICANA

Outras canções como a convidativa Circle Of Life, a animada Hakuna Matata, a sombria e lúgubre Shadowland, a fúnebre Rafiki Mourns e a emocionada They Live In You/He Lives In You pontuam diferentes aspectos da cultura africana, que também é fortemente explorada no texto. Em toda a obra é intensa a presença dos dialetos IsiZulu, IsiXhosa, SeSotho, SetSwana, Congolese e KiSwahili.
Outro aspecto da cultura africana mais fortemente explorado pelo musical do que pelo filme é a presença de um sangoma, representado pela babuína Rafiki. Sangoma é uma espécie de curandeiro e que, na cultura africana, estabelece uma ponte entre os vivos e os seus ancestrais que já morreram, confirmando o ciclo natural da vida ao afirmar que um ancestral continua vivo através de seu sucessor. No musical, Rafiki pontua toda a história como narradora e como guia espiritual dos demais personagens. Esse papel é obrigatoriamente representado por uma atriz/cantora sul africana em qualquer produção do musical. No Brasil, a excepcional Phindile Mkhize, que no próximo mês comemora seu 11° ano de O Rei Leão (com produções em diversos países), dá vida à Rafiki. As atrizes que ocupam as funções de 1° e 2° cover de Rafiki também são sul africanas. Ao todo, 11 atores sul africanos dividirão os palcos com os atores brasileiros. A Disney Theatrical Group decretou obrigatória a presença de no mínimo 7 atores/cantores sul africanos em seus elencos de qualquer uma das produções oficiais de O Rei Leão pelo mundo. Todos os anos, são feitas audições em diversas cidades da África do Sul para a contratação de novos profissionais. A resposta para isso é simples: o coro de 11 vozes sul africanas ressoa como 100 vozes fortes e bem treinadas, dividindo uma paixão sem limites por sua própria cultura. A música africana explorada pelo espetáculo também traz elementos típicos da cultura tribal como a improvisação musical, a polifonia, a polirritmia, síncope de ritmos e o artifício de chamada e resposta, onde um cantor ou grupo faz a vez de líder e canta algo que ecoa por outro grupo.

Também no figurino, podemos encontrar uma bela homenagem aos reis Zulu. Tanto Mufasa quanto Simba (após assumir o trono) usam um manto que se assemelha à pele de um leopardo. Na cultura Zulu, o rei deve ser o homem mais valente e forte da tribo, capaz de proteger todo o seu povo. Portanto, para se consagrar rei, o homem é levado à selva e deve caçar, lutar e matar, sem o uso de qualquer arma que não seja a própria força, um leopardo, o animal mais rápido da savana. Então, a pele do animal é retirada e dela é feito um manto utilizado pelo rei como prova de sua força e coragem.


A PRODUÇÃO BRASILEIRA

O musical mais aguardado do ano pelos brasileiros vem mostrando que o investimento em teatro musical garante um retorno extremamente expressivo e que não se limita ao financeiro. A diversidade cultural de O Rei Leão se equipara a raras obras primas, colocando em harmonia culturas que até então pareciam opostas. E a cultura brasileira também promete ser explorada dentro do musical sobre todos os aspectos, mas para isso, é necessário conferir de perto a mega produção, atualmente em cartaz  no Teatro Renault.

No elenco: Phindile Mkhize (Rafiki), Tiago Barbosa (Simba), Josi Lopes (Nala), Osvaldo Mil (Scar), César Mello (Mufasa), Rodrigo Candelot (Zazu), Ronaldo Reis (Timão), Marcelo Klabin (Pumba), Renata Vilela (Sarabi), Juliana Peppi (Shenzi), Jorge Neto (Banzai), Felippe Moraes (Ed) e mais 33 atores/cantores/bailarinos. 8 crianças se revezam entre os personagens Jovem Simba e Jovem Nala.

Para maiores informações, acessem: www.oreileaoomusical.com.br

por Madame Brice     02 / 04 / 2013