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sábado, 27 de abril de 2013

Vida de gado: O drama diário de trabalhadores nos transportes públicos termina em morte!

Semana passada, deparei-me com uma notícia bastante triste. O sobrinho de 15 (quinze) anos de uma grande amiga havia falecido. Seu nome é Leonardo de Souza Silva.

O que andei lendo pelos jornais o seguinte: 

 

“Um estudante de 15 anos morreu ao cair nos trilhos da estação Brás da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), na região central de São Paulo... Por meio de uma nota, a CPTM lamentou a morte de Leandro de Souza Silva e disse que está "contribuindo com a investigação policial" para que a ocorrência seja esclarecida. A companhia diz ainda que faz uma investigação interna para saber o que ocorreu. 


De acordo com a CPTM, testemunhas disseram que o rapaz pulou da plataforma para o estribo de uma das portas da composição quando o trem ainda estava em movimento. O passageiro teria então se desequilibrado e caído nos trilhos. 


A CPTM diz que as imagens das câmeras da estação mostram que a plataforma 7, onde estava o estudante, não estava lotada na hora do acidente e que tinha "condições normais para o embarque", ou seja, a companhia descarta a possibilidade de o jovem ter sido empurrado por outros passageiros durante o embarque. 


A companhia diz que Silva foi socorrido por agentes da estação, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital. A CPTM também lamentou o ocorrido na nota”.


Só que tem um problema... Gosto muito de entender os dois lados sobre tudo que me contam... E como a gente conhece muito bem como se dá o transporte público (aqui no Rio de Janeiro é um caos, imagine em São Paulo/Capital?), resolvi conversar com ela. Até mesmo para tentar lhe dar conforto.


Numa ligação que demorou cerca de 40 min, minha amiga, conhecida no movimento negro como Luh Souza, me contou entre outras coisas, que seu sobrinho era super tranquilo. Não era um rapaz de grandes algazarras, e que com toda certeza, ele jamais faria o que deixaram subentendido: que o rapaz teria pulado sobre os trilhos. Contou também sobre o drama que sua família passou para a liberação do corpo no IML, devido a um erro em seu nº de RG e que um plantão empurrou ao outro, e assim o garoto morto na terça feira só pode ser velado na noite de quarta, sendo enterrado só na quinta feira, causando um sofrimento extra para os pais que desejavam ansiosos despedirem-se do filho amado. O descaso dessas entidades, responsáveis por toda burocracia quando algum parente nosso morre é vivido por inúmeros brasileiros... Além da dor da perda de um ente querido, tem de se submeter a espera, mal tratos e manipulação de informações.


Segue uma pequena entrevista, cedida por Luh à Preta&Gorda



- Preta&Gorda: Como era seu sobrinho no dia-a-dia, Luh?

Era um garoto amável, educado, e querido por todos. Tanto que foi preciso organizar

fila em seu velório para que os amigos da escola e do bairro pudessem se despedir dele.



- Preta&Gorda: Era o primeiro emprego dele? Estava indo trabalhar em que?

Não estava propriamente trabalhando ainda, estava no emprego há questão de dias,

Estava em teste para trabalhar como aprendiz. Tinha horário especial para que pudesse estudar. 


- Preta&Gorda: Quais foram as imagens que foram disponibilizadas para vocês familiares do rapaz?

 Bem, nas filmagens se vê o menino na plataforma, depois tentando ser socorrido pelos seguranças do local, e depois sendo socorrido no lado inverso da plataforma. Ele caiu em pé entre o vão da composição e a plataforma, e como era um garoto franzino, a velocidade com que caiu o fez bater com o tórax no trem, causando politraumatismo (suas costelas foram quebradas). 


No caso, ele deveria ter ficado imóvel até que chegasse o  socorro especializado, se caso fosse, que cortassem o trem ao meio para tirá-lo de lá, como é feito com veículos nas estradas em que as vítimas ficam presas às ferragens. Mas em horário de pico, a vida de um garoto vale quanto? Salvar a vida de um garoto que ninguém conhece ou fazer o fluxo da população da Zona Leste (a mais populosa de São Paulo) chegar em casa? Então os seguranças o instruíram a rastejar até o outro lado, entre os trilhos e por baixo do trem para que ele fosse socorrido. Ao chegar do outro lado, suas costelas quebradas perfuraram seu pulmão. Minha família ouviu de funcionários que ele chorava, reclamando de falta de ar... Morreu ali mesmo.

Leonardo de Souza Silva tinha 15 anos de idade.



- Preta&Gorda: Qual foi a desculpa da CPTM por não mostrar o momento exato da queda do seus sobrinho nos trilhos?

Dizem sutilmente que meu sobrinho pode ter brincado na porta, mas que há um ‘ponto cego’ do momento em que ele caiu, pois não há câmeras neste ponto. Mas a questão é: como aparecem nas filmagens os seguranças tentando socorrê-lo bem neste tal de ‘ponto cego’? E filmamos no dia seguinte o ponto em que ele caiu e há sim, pontos de filmagem em toda a plataforma, inclusive no ponto em que o Leo caiu. Pergunto: Interessaria a quem  apagar estas imagens?


- Preta&Gorda: Como se deu o resgate dele? Você acha que eles agiram da maneira correta?

Evidentemente que não agiram. Não estamos julgando os funcionários que o socorreram, mas temos certeza que não há equipe preparada pra agir em casos como estes. Meu pai, idoso, já caiu neste vão, também outra sobrinha, ambos vindo do trabalho, mas que foram socorridos por outros passageiros enquanto a maioria passava por cima da cabeça deles sem se importar.  Eu já sofri hematomas nesta mesma estação por conta do empurra- empurra. Afirmo: é assustador andar de trem nos horários de pico. Meu sobrinho ainda não tinha malícia de se autoproteger. As pessoas querem voltar para suas casas o mais rápido possível, moram em ‘cidades dormitório’, ou seja, apenas chegam a tempo de dormir e voltar de novo antes do amanhecer. São tratadas indignamente pelo governo de São Paulo e acabam também por se tornarem assassinas sem o saber... Empurram pra irem sentadas ou para ir naquela composição, entaladas como sardinhas, cansadas... Muitos vão pra escola, e ou faculdade, e até mesmo outro emprego. 


- Preta&Gorda: Como foi todo o processo de levar o seu sobrinho pro hospital, reconhecer o corpo no IML? Acha que vocês foram bem atendidos?

Quem poderia falar especificamente sobre isso são os pais, mas posso te afirmar que sofreram além do limite humano...  Morando longe de onde se trata destes assuntos, ficaram praticamente 3 (três) dias sem dormir, sofrendo todo o tipo de horror. A situação só se definiu porque conheciam alguém capaz de interferir, e só na noite de quarta feira o corpo do menino pode ser velado. 


- Preta&Gorda: Você acha que a CPTM tem contribuído com TODAS as informações necessárias para a investigação do caso?

Sim, na medida do possível. Mas minha sobrinha soube por celular no mesmo dia em que ele havia ido a óbito, quando estava na própria estação em que ele foi vitimado. Passou mal, e assim pode constatar que os seguranças, embora todos eles a tenham tratado bem, não são treinados para o socorro, tanto que nem sabiam como colocá-la na maca. Uma coisa que nos incomoda é o tal do ‘ponto cego’, vamos questionar judicialmente isso... Foi apagado? 


- Preta&Gorda: Como é o dia-a-dia de quem pega o Trem/Metrô no Brás todos os dias no horário de rush?

Nos trens do Metrô, desde o terminal Barra Funda até Corinthians Itaquera, e trens da CPTM (todas as estações que partem para a periferia), ‘Salvem-se quem puder!”

As pessoas são tratadas como gado em curral de abate.  Qualquer um pode notar a diferença de tratamento só verificando os locais em que as estações estão estabelecidas, como é o caso de estações de metrô, quanto mais em área nobre, percebe-se mármore nos pisos, obras de arte e trens mais espaçosos, novos e condições mais aprazíveis. Quanto mais em área de subúrbio, mais simples e desprezível. Porque existe esta diferença de tratamento se todos pagamos impostos e a constituição prevê que ‘todos são iguais perante a lei?”


Outra coisa que nos incomoda é que no B.O. (boletim de ocorrência) a CPTM afirma que o vão é de apenas 15 cm entre a composição e a plataforma, mas fomos medir e são 21 cm. Soubemos, através de reportagens, que as plataformas destas estações não podem ter este espaço diminuído porque a malha ferroviária tanto serve de transporte de passageiros como também para descarregamento de carga, assim sendo, as composições de carga são maiores. Não sabíamos que somos tratados como carga produtiva... Os usuários deste meio de transporte são tratados como carga, e acabam também por perderem o sentimento humano pelo outro. Assim o governo do Estado trata a população assalariada e trabalhadora, entende? Fazendo que a própria população se matem uns aos outros sem nem mesmo se dar conta, para ir ao trabalho e voltar. Quem já esteve em situação de tumulto, sendo pisoteadas  pelos outros, saibam que os usuários de trens do Metrô e trens da CPTM, vivenciam isso TODOS OS DIAS!  Lembram-se das vítimas do incêndio em Santa Maria? Saibam que os trabalhadores em São Paulo vivem o mesmo todos os dias, e ninguém se emociona...


Há índices de morte sobre vítimas de acidente de trânsito, mas até perder meu sobrinho não tinha me dado conta que as mortes em ferrovias são invisíveis. Quantos morrem nas malhas ferroviárias em São Paulo, ou no Brasil? Quantas são as vítimas que ficaram mutiladas? Quantas se suicidam ou perdem o equilíbrio na hora do embarque? Acontece quase todos os dias, acredite!


Soubemos que no mesmo dia em que meu sobrinho foi vitimado, outro usuário também morreu na estação Luz da CPTM. Da mesma forma.


- Preta&Gorda: Luh, o que você espera que seja feito pelas autoridades que estão investigando o caso?

Com a morte de Leonardo, a quem chamávamos carinhosamente por Léo, não vamos  parar. Não o teremos de volta, mas queremos que a morte dele sirva de protesto. Mês que vem ele faria 16 anos, no dia 08 de maio, e faremos uma manifestação para conscientizar a população dos perigos que correm todos os dias:


- Portas de contenção de fluxo nas plataformas da CPTM;


- Equipe médica, e pessoal treinado para casos de acidentes nas estações da CPTM em horário de pico; 


- A imediata separação da utilização da malha ferroviária de trens de carga e trens de passageiros para que o espaço entre os trens e as plataformas diminuídas, como é o caso dos trens do Metrô;


- Mais segurança pessoal em cada porta no horário de pico, e outras coisas mais que identificarmos no decorrer das pesquisas que estamos fazendo por conta própria. 


Um desabafo como cidadã paulistana:


É muito comum em épocas de eleição, assistirmos nas propagandas políticas do PSDB (governo no poder há décadas!), os candidatos ao governo andando de trem, de ônibus, segundo eles estão fazendo ‘pesquisa de campo’, mas fazem isso num horário que os trabalhadores estão na labuta!


Sugiro ao Governador, ou ao próximo candidato, que implantaram a POLÍTICA DA MERITOCRACIA para tudo em São Paulo, para os professores, para o direito dos Cotistas, enfim, que tenham um mês trabalhando como ajudante de pedreiro, batendo massa e carregando pedra, comam um prato feito, marmitinha com ovo, depois embarquem na estação Brás da CPTM nos horários em que o trabalhador volta pra sua casa... MERITOCRACIA para também merecer nosso voto! Espero que sobrevivam até as eleições... Certeza que qualquer trabalhador cederia sua casa na Zona Leste para o teste, uma vez que é exatamente aqui que a eleição se define em São Paulo.


Para finalizar, faço um apelo para quem viu a morte dele. Talvez alguém tenha filmado e se por acaso isso ocorreu, que entrem em contato para servir de testemunha, por favor! O que aconteceu com ele e conosco (familiares) pode também acontecer com você.

--


Analisar toda essa situação de fora, gera grande revolta em mim... E olha que nem sou da família! Será que se a família fosse rica, teriam demorado tanto tempo para liberar o corpo? Será que se a família fosse rica, as filmagens que foram cortadas rapidamente apareceriam? Será que num país como o nosso existe verdade, justiça e direitos humanos?


Primeiro lugar que todas as estações de Trem, Metrô, em São Paulo, Rio de Janeiro e em todos os lugares onde se faz uso de transporte ferroviário, deveriam ter uma parede de proteção que se abrisse somente quando o trem estivesse devidamente estacionado na plataforma de embarque e desembarque. Sem essa proteção, qualquer um de nós é um assassino em potencial! A verdade é essa! Na hora do rush, o desespero para se acomodar em uma posição favorável para entrar no trem, um descuido, um tropeço, pode fazer com quem está na sua frente caia nos trilhos. Pode ser por acidente, pode ser criminoso (a gente nunca sabe como anda a mente das pessoas). Isso é um fato! Não estou falando essas coisas para colocar medo na cabeça de ninguém... Mas é o que todos os dias eu penso quando vou pegar meu metrozinho para ir para o trabalho e voltar pra casa. Somos também vítimas em potencial!


Por incrível que pareça, a única plataforma que eu vi com esta proteção estava... Adivinha? Na Zona Sul de São Paulo! Vi quando estive lá para a Caminhada do Movimento Negro, no dia 20 de Novembro, dia da Consciência Negra. Então a velha estória se repete, certo? A burguesia sempre protegida e os pobres que se fodam! Que morram! 


Somos transportados como gados para trabalhar e enriquecer os bolsos de grandes empresários. Morremos dando nosso sangue e nosso suor para que os ricos enriqueçam cada vez mais. Sem direitos, e os poucos que existem sequer são respeitados.


Eu quero ver quando esse vídeo irá aparecer. E se irá aparecer... 


Será que existe justiça para injustiçados?


A Preta&Gorda lamenta a morte de Leonardo, manifestas seus sentimentos a todos os familiares e amigos deste rapaz e deseja profundamente que medidas sérias sejam tomadas, e que sejamos finalmente tratados como seres humanos.


Alessandra de Mattos.

Preta&Gorda.



Links das matérias, relacionadas.













http://noticias.band.uol.com.br/cidades/noticia/?id=100000591803 

Alessandra de Mattos - Preta, Carioca, no processo de afrocentricidade, 32 anos.
Analista de Suporte Pleno. Desenvolveu desejo pela luta contra o racismo e opressão ao longo dos anos e hoje encontra-se como militante ativa na luta pela inclusão de pretos e pretas em todas as esferas sociais, trabalhando a conscientização dos nossos irmãos e irmãs a cerca desta problemática, proporcionando mecanismos de leitura e conhecimento cultural e político e trabalhando a auto-estima do nosso povo que se encontra abalada pela discriminação racial, muita das vezes mascarada pela sociedade. Alessandra é idealizadora e Administradora da Comunidade Preta&Gorda.