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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Documentário “Raça” exibe trajetória de três personalidades negras na luta pela igualdade racial



Toda a renda obtida com a bilheteria do filme, que estreia no próximo dia 17 de maio nos cinemas brasileiros, será revertida para o Fundo Baobá, entidade voltada à promoção da equidade racial

Redação Correio Nagô* – O senador Paulo Paim e a batalha pelo “Estatuto da Igualdade Racial”. A neta de africanos escravizados Miúda dos Santos e a luta pela posse de terras. O cantor Netinho de Paula e a tentativa de consolidar o canal TV da Gente. Três diferentes iniciativas que o cineasta Joel Zito Araújo e a documentarista norte-americana Megan Mylan decidiram registrar no documentário “Raça” que estreia no próximo dia 17 de maio.

O documentário é uma coprodução entre Brasil e Estados Unidos, filmado entre 2005 e 2011. Em 104 minutos de duração, o vídeo registra diferentes vertentes do debate sobre as questões raciais do país. Toda a renda obtida com a bilheteria do filme será revertida para o Fundo Baobá, entidade voltada à promoção da equidade racial “O filme capta o debate sobre a busca da superação da desigualdade racial no Brasil. Para registrar esse momento histórico em que o debate racial se tornou constante na mídia e no discurso público, decidimos acompanhar de perto três personalidades negras que estão – cada uma a sua maneira – na linha de frente dessa batalha pela igualdade”, destaca, em entrevista ao Portal Correio Nagô, o cineasta Joel Zito Araújo, diretor do longa-metragem “A Negação do Brasil”, que aborda a história do negro nas telenovelas brasileiras, e que ganhou o prêmio de melhor documentário no festival É Tudo Verdade, além de ter sido também premiado no Festival de Recife em 2001.

Joel Zito, que é PhD em Comunicação pela USP, dirigiu ainda “Filhas do Vento”, obra que reuniu o maior elenco negro da história do cinema brasileiro e ganhou oito kikitos no Festival de Gramado, além de ter sido o filme vencedor do Festival de Tiradentes, em 2006.

Personagens - Nessa nova empreitada, três personagens foram escolhidos para serem o foco do documentário. Em uma das três trajetórias escolhidas pelos diretores, está o senador Paulo Paim tentando sancionar a lei do “Estatuto da Igualdade Racial” no Congresso Nacional, em Brasília. Paim é autor do projeto original que demorou quase uma década para ser aprovado.



De Brasília para o Espírito Santo, o documentário exibe a luta de Miúda dos Santos, neta de africanos escravizados e ativista quilombola, pela posse das terras e pelo respeito às suas tradições ancestrais da Comunidade Quilombola de Linharinho. Junto com os moradores da região, Miúda briga contra uma empresa do ramo da celulose.

Já nos bastidores da TV brasileira, “Raça” mostra o processo de criação e a tentativa de consolidar o canal TV da Gente, do cantor, apresentador e empresário Netinho de Paula. Fundado em 2005, no interior de São Paulo, o canal formado majoritariamente por profissionais negros foi idealizado pelo artista.
“A escolha dos personagens veio do desejo de poder acompanhar histórias de vida de pessoas que estivessem no epicentro do debate. E como grande parte da polêmica girava em torno de cotas na universidade, de terras quilombolas, da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, e a dificuldade de uma representação igualitária do negro na mídia, procuramos pessoas ligadas a ela”, destaca Joel Zito.

Durante sete anos, os diretores acompanharam as batalhas enfrentadas por cada um dos três personagens. “Quando você resolve fazer um filme de cinema direto, acompanhando as lutas de três pessoas, são as vidas deles que indicam quando a filmagem deve acabar”, conta a cineasta Megan Mylan, também em entrevista ao Portal Correio Nagô. Ganhadora de prêmios como o AcademyAward, IndependentSpirit e o Guggenheim, Mylan produziu e dirigiu o filme “SmilePinki” ganhador do Oscar de 2008. A temática social é frequente em seus trabalhos.

Ela ressalta ainda que, principalmente no caso da luta do Senador Paim, para a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, as filmagens tiveram que ser mantidas, enquanto o estatuto ficou tramitando no congresso. “Na questão da Dona Miúda, desafortunadamente, ainda tem muito a ser conquistado na busca de titulação de terras quilombolas, mas resolvemos que com a aprovação do Estatuto, estávamos em um momento chave para o nosso filme entrar em cartaz. Estava na hora de contribuir para o diálogo nacional em torno da questão”, acrescenta a cineasta.

Numa ação inédita, os diretores do documentário firmaram acordo com o Fundo Baobá e toda a renda obtida pela bilheteria do filme será revertida para a entidade, voltada à promoção da equidade racial.
Parceria – Para os diretores, o filme é resultado de uma amizade iniciada na década de noventa. Nesta época, Megan viveu no Brasil, trabalhando na fundação Ashoka. “É uma pessoa de muita sensibilidade para questões sociais. Mas foi em 2004 que surgiu a ideia de dirigirmos um filme juntos”, diz Joel Zito.

Já Mylan conta que mesmo após voltar para os EUA continuou a ficar de olho no Brasil. “A negação da disparidade racial no Brasil era uma coisa que me chocou quando morei no país. Em 2004 eu estava acompanhando o debate sobre a adoção de cotas na UERJ pela internet. Senti que finalmente o Brasil estava enfrentando a realidade de sua disparidade racial, reconhecendo que a bela ideia de que o Brasil seria um país sem preconceito, sem diferença entre as raças era de fato um mito”, relembra.

Ela relata ainda que foi daí que surgiu a ideia de documentar o período que o Brasil vivenciava. “Com meu olhar de cineasta, queria saber quem estava documentando este momento tão histórico, imaginei que tinha que ter cineastas brasileiros já fazendo. Liguei logo para o Joel, mas não encontramos ninguém já acompanhando. Então como documentaristas só tínhamos uma opção, teria de ser nós mesmos quem faria o trabalho”, diz.

“Sou de uma geração que, na juventude, esses problemas eram considerados apenas um problema dos afro-brasileiros. É como se o racismo não fosse um problema de uma relação desigual entre raças distintas. Portanto, tivemos o insight que era a hora de fazer um filme grande sobre este novo contexto histórico brasileiro”, complementa Joel Zito. Para ele, o documentário “Raça” faltou apenas discutir “a violência exterminadora de jovens negros”.

(Os diretores Joel Zito Araújo e Megan Mylan) 
Em uma das cenas do documentário, o senador Paim faz uma declaração que resume um pouco o debate sobre o tema. Ele diz ‘Quando tu vai numa empresa, quando tu é discriminado, eles não pedem teu DNA, só olham para ti. A questão é que nosso povo negro tá sendo assassinado, é excluído e é o que ganha o menor salário’.

Filmagens – Mylan relata ainda que encontraram dificuldade com apoio financeiro para as filmagens. Mas, para ela, o maior desafio foi selecionar três histórias que pudessem representar a “mudança social que está acontecendo em todos os setores do país”.

“Um filme não pode fazer tudo, mas também temos uma responsabilidade de criar algo que represente bem esta transformação nacional. Nossos personagens representam três áreas diferentes: governo, mídia e herança cultural e histórica. O estilo que resolvemos utilizar para captar este coisa dinâmica foi o cinema direto, um estilo de observação. Com isso, você tem que estar presente nos momento chaves, e suas personagens tem que ser pessoas na linha da frente das coisas”, diz.

O vídeo teve sua primeira exibição na Mostra Première Brasil – HorsConcours, durante o Festival de Cinema do Rio de Janeiro, e no Fespasco, em Burkina Faso, o mais importante festival africano.

“O filme teve uma recepção comovente. O público ama e, mesmo fora daqui, reconhece a sua importância política e social. Além de termos recebidos muitos elogios por sua qualidade artística”, conta Joel Zito.

Para Mylan, os brasileiros não devem deixar de conferir o documentário. “É um filme bom, com uma história bem contada de três brasileiros cujas vidas representam um momento de transformação histórica do país. Queremos promover uma discussão nacional qualificada sobre equidade racial, tentando que as pessoas saiam entendendo melhor o quanto a igualdade racial é fundamental para a cidadania e para um Brasil moderno.”, promete.

*Por Anderson Sotero