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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Para jurista, assassino de jovem negro foi absolvido por falhas da promotoria

A absolvição de Robert Zimmerman, indiciado pela morte de Trayvon Martin, no último sábado levantou uma onda de repudio nos Estados Unidos



O veredicto que, no último sábado, absolveu Robert Zimmerman, indiciado por matar o adolescente negro Trayvon Martin, foi amplamente repudiado nos Estados Unidos e motivou centenas de protestos em todo o país. Segundo o professor Christopher Bracey, vice-reitor da Faculdade de Direito da Universidade George Washington, a esperada condenação por homicídio culposo não aconteceu por causa de erros da promotoria. Mesmo assim, ele acha muito possível que Zimmerman enfrente um processo federal por crime contra os direitos civis. Professor da George Washington desde 2008 e formado em direito por Harvard, Bracey é especialista em relações raciais nos EUA e julgamentos criminais, com análises veiculadas pelos mais importantes órgãos da imprensa americana. A seguir, trechos editados da entrevista:


Terra: Como o senhor avalia o trabalho da promotora especial designada para o caso?

Bracey: A promotora pegou um caso difícil do ponto de vista político. Lembre-se, Zimmerman só foi preso e indiciado após começarem os protestos. O caso judicial era relativamente simples, entretanto. [...] Existiam provas suficientes para dar suporte às duas acusações [homicídio em segundo grau ou culposo], com a de homicídio culposo sendo a mais fácil de provar.


Infelizmente, a promotora cometeu vários erros táticos no decorrer do julgamento. As testemunhas da acusação pareciam que não queriam cooperar ou estavam despreparadas para depor. A própria promotora não conseguiu explicar bem como a questão racial influenciou na decisão de perseguir e, eventualmente, confrontar Trayvon. A argumentação final da promotora poderia ter sido muito mais persuasiva.


Em retrospecto, tudo pode ser criticado. Mas neste caso uma série de erros da promotoria levaram muitos de nós a achar que existia uma grande possibilidade de ele ser absolvido.


As questões raciais afetaram a maneira como o assassinato de Trayvon foi percebido porque, por bem ou por mal, a cor da pele influencia cada aspecto de nossas vidas nos EUA



Terra: Como o problema racial afetou a percepção da opinião pública sobre a morte de Trayvon?

Bracey: 

A questão racial esteve no centro do caso, apesar de vários protestos em contrário. Vamos ser francos. Trayvon era suspeito, aos olhos de Zimmerman, exatamente porque não parecia pertencer à vizinhança. E por que ele não parecia pertencer? Por causa da cor. Desde o início, Trayvon - o adolescente de 17 anos - foi descrito como um negro ameaçador circulando na vizinhança. Zimmerman nunca viu Trayvon como uma pessoa. Ele apenas viu uma ilusão criada em sua própria mente.


Além disso, os americanos brancos sempre consideraram a vida dos negros e pardos menos preciosa. Mais dispensável. Isso aconteceu durante a escravidão e continua sendo verdade. Alguns consideram o assassinato de Trayvon infeliz, mas completamente compreensível. Outros o veem como confirmação de que o racismo continua muitíssimo vivo. Imagine se um morador negro perseguisse, atirasse e matasse à queima-roupa um jovem branco de classe média que voltava da loja onde tinha acabado de comprar doces numa noite chuvosa. Você acha que a polícia teria o prendido imediatamente? Será que precisaria de protestos nacionais para que o caso rendesse um indiciamento? Estaríamos tendo esta conversa?


As questões raciais afetaram a maneira como o assassinato de Trayvon foi percebido porque, por bem ou por mal, a cor da pele influencia cada aspecto de nossas vidas nos EUA. É algo entranhado em nossa consciência cultural. É parte de todos nós.


Terra: A primeira entrevista de Zimmerman foi concedida a Sean Hannity, um comentarista de direita do canal Fox News. O que isso representa para o debate sobre o controle das armas nos EUA?


Bracey: A ironia do julgamento de Zimmerman é que ele transmite a mensagem errada. As leis de autodefesa [da Flórida e outros estados] foram criadas para proteger possíveis vítimas de crimes. Zimmerman não era uma possível vítima. Ele instigou o crime. Ele foi o agressor. Ele seguiu Trayvon de carro. Ele saiu do carro e perseguiu Trayvon. Ele puxou briga. E ele terminou a briga quando disparou o tiro fatal no peito de Trayvon. A maioria das pessoas acha que as leis de autodefesa da Florida foram criadas para proteger os Trayvons de um mundo que há Zimmermans soltos por aí.


Vendo a questão de outro modo, Zimmerman talvez tenha sorte de que Trayvon não era mais parecido com Zimmerman. Se os dois estivessem armados e “agissem em autodefesa,” um resultado muito diferente e talvez até mais trágico teria ocorrido. É por isso que a maioria dos americanos apoia mais restrições ao porte de arma. É simples – menos armas significam menos oportunidades de desperdiçar vidas.


Terra: O condomínio em que Trayvon foi morto já foi descrito como etnicamente diverso. O próprio Zimmerman é filho de americano com peruana. Mas Trayvon, que era negro, foi visto como uma ameaça. O que isso mostra sobre a discriminação racial nos EUA?


Bracey: É errado pensar que as minorias raciais são imunes a estereótipos destrutivos ou não podem pensar ou agir de maneiras tóxicas diante de outras raças. O mesmo é verdadeiro para pessoas de origem mestiça. De fato, a maioria das pessoas nos EUA já é mestiça em algum nível. A raça é uma construção social. Damos sentido à cor e vivemos de acordo com o que pensamos. Não há motivo para pensar que apenas os brancos fazem isso. Estereótipos são atalhos. Num mundo em que a informação é limitada, todos nós dependemos de atalhos de vez em quando. A discriminação é um desses atalhos. O triste é que quando se usa isso o resultado geralmente é trágico.

Fonte: Terra