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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Licenciada após racismo, vereadora pede prefeito negro para Piracicaba


Travesti teve imagem associada a um macaco em foto divulgada na internet.
Madalena (PSDB), que trata um câncer, ficará afastada por quase 30 dias.


Um dia depois de pedir afastamento de um mês da Câmara de Piracicaba (SP), a vereadora Madalena (PSDB), cujo nome de batismo é Luiz Antônio Leite, concedeu uma entrevista ao G1 Piracicaba. Na conversa, afirmou que o racismo da cidade só vai acabar quando a população eleger um prefeito negro.
Desde que venceu as eleições em 2012, se tornando a primeira travesti a ocupar um cargo eletivo, ela já enfrentou ameaças de morte, cuida de um câncer de próstata e agora sofre com um ato de racismo, em que foi comparada a um chimpanzé em uma foto. Depois disso, a então líder comunitária contou que pensou em desistir do mandato, e que deixou até de comprar bananas nos mercados da cidade. 
Depois de quase nove meses ocupando uma cadeira no Legislativo, pouca coisa mudou na vida pessoal de Madalena. Por um lado, ela deixou de ganhar o salário antigo, de R$ 900, e passou a receber R$ 10.900, mas continua vivendo no mesmo lugar de 20 anos atrás. A residência, aliás, está em reforma desde que foi construída e a obra continua parada no mesmo ponto desde a última visita da reportagem ao local, há 11 meses.
Primeira vereadora travesti na história de Piracicaba, Madalena referiu-se a si mesma durante a entrevista usando os gêneros masculino e feminino. A reportagem manteve as expressões tal como foram ditas em nome da fidelidade às falas. Confira a entrevista:
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Madalena, vereadora travesti de Piracicaba que passou mal diz ter câncer de próstata (Foto: Fernanda Zanetti/G1)Madalena afirmou que o afastamento se deveu por
causa de ato racista (Foto: Fernanda Zanetti/G1)
O que te levou a pedir o afastamento?
A saúde estava indo muito bem no tratamento, mas tive vários problemas: de ameaça, no meu gabinete, um monte de coisa. Então, abalou tudo e voltou a dor para ir ao banheiro. Fui ontem (quinta-feira, dia 15) ao médico e ele me afastou, me deu um monte de remédios para tomar. O problema pior foi quando cheguei no serviço e tava lá a cara de macaco, que acabou comigo. Fui atrás de advogado, e até o Thame (deputado federal Antonio Carlos de Mendes Thame) ligou de Brasília para mim. Um caso como esse não podia ter acontecido.
Como você soube do ato de discriminação?
O marido da minha sobrinha estava na internet e, duas horas da manhã, ele viu e chamou a menina. Na hora que ele confirmou que era eu com a cara de macaco colada no rosto, ligou para o meu chefe de gabinete e avisou. Aí todo mundo viu, foi aquele comentário e eu nem sabia ainda. Quando cheguei lá na Câmara fiquei sabendo e acabou meu dia, fiquei chateada. Não almocei, não jantei. A pessoa que fez isso gosta muito de machucar as pessoas. Eu fiquei passado. Se houver justiça na terra, eu quero descobrir quem fez isso. Eu não vou ficar quieto. Se não pegar quem fez isso, daqui a dois meses vem outra bomba para mim. Se a pessoa fez isso, pode aprontar outra de novo. É gente que não tem coração, não tem família, não tem amor. Para você ter uma ideia, toda vez que eu vou ao supermercado peço um cacho de bananas, peço para a dona e levo. Hoje eu fui comprar a ração para o cachorro e você acredita que eu não consegui pedir para trazer a fruta? Não peguei, pois pensei que podia pegar mal.
Depois que entrou na política, esse foi o único caso de preconceito que você sofreu?
Eu tive um outro, mas eu não posso nem falar. Eu nem estava em Piracicaba quando soube, então, deixa quieto. Eu tô triste por causa desse problema do macaco. É chato, todo mundo chega para mim e fala disso. Todo mundo fala que essa pessoa tem que ser presa, mas eu fico envergonhada.
Com relação ao ato de preconceito, depois do episódio, te deu vontade de voltar a ser apenas uma líder comunitária?
Se eu soubesse que iria ser essa confusão... a pessoa de cor não tem valor, é pisada, pisada, pisada, pisada, entende? Eu acho que isso tem que acabar, tem muita gente de cor que é importante. Já tá na hora de vir um prefeito de cor para a nossa cidade, mas só depois que acabar o mandato do Gabriel Ferrato (PSDB).
Montagem compara vereadora negra e travesti de Piracicaba a chimpanzé (Foto: Reprodução/internet)Montagem compara vereadora negra e travesti de
Piracicaba a macaco (Foto: Reprodução/internet)
Sobre o período fora, você acha que vai precisar de mais tempo afastada?
Não, se eu tomar o remédio direitinho não tem problema, caso contrário, o médico falou que me dará mais 30 dias. Falei com a Kátia (Mesquita, diretora administrativa da Câmara) e com o presidente João Manoel (PTB). Eles me deram muito apoio, e ainda disseram que eu devo procurar eles caso aconteça qualquer coisa. Os vereadores do partido me deram muito apoio e eu fiquei muito contente. O vice-presidente do meu partido (José Aparecido Longatto) me deu muito apoio, todos os vereadores me apoiaram.
O que você pretende fazer nesse mês?
Eu vou ficar em casa, vou passar três dias na casa da minha sobrinha para tomar uns remédios. Foi muito duro, sabe, quando um monte de gente fala na sua cabeça? Agora eu quero ficar um pouco sossegada. Minha sobrinha quer que eu viage nesse mês e eu vou pensar nisso.
Qual a avaliação você faz do seu mandato até agora?
Estou contente. O que é o meu projeto? Os bairros, andar nos bairros e ver os problemas de lá e ajudar porque os bairros afastados têm muitos problemas. Tem muito vereador que faz isso também, mas eu sou assim: a turma liga e diz que está com problema e eu vou lá e a gente vê campo abandonado, quadra quebrada, rua cheia de buraco, problema de creche, entende? Então, eu estou indo. Mas eu estou contente, a turma está contente comigo, já fiz visita na Casa do Morador de Rua e vou na Casa do Bom Menino quando voltar do afastamento. O que eu sei é que estamos fazendo um bom trabalho.
Isso é o que me segura, pois o povo votou em mim porque acreditava em mim. Já tem 20 anos que eu toco esse bairro (como líder comunitária) e todo lugar onde eu vou tem sempre gente que me chama para ajudar em um problema. E eu vou mesmo, só que alguns vereadores não gostaram que vou no bairro deles (risos), mas tem que ir, porque eu não tive voto só aqui no Boa Esperança, tive em todos os lugares. Na minha campanha eu falei para os outros vereadores: ‘vão ao Boa Esperança também porque eu não mando no bairro’. Não adianta brigar, discutir por causa do bairro, tem que trabalhar todo mundo junto.
Em algum momento você pensou que seria melhor ter ficado trabalhando somente na sua comunidade?
Para falar a verdade, eu pensei que se entrasse eu faria um bom trabalho, e eu estou fazendo, só que não depende só de mim. Depende de cada secretário, tem uns que atendem e outros que não atendem. A gente depende deles e eles dependem do prefeito. Eu tenho um secretário muito bom lá que me atende muito bem, se eu pudesse falar o nome dele eu falaria. O prefeito também, eu não tenho nada para falar do Gabriel. Eu tenho certeza que ele vai fazer um bom trabalho. A turma está mandando brasa nele, mas ele vai ser um bom prefeito. Para endireitar uma cidade como a nossa é difícil, e ele começou agora.
Por que você acha que os secretários se recusam a te atender?
Cada secretário tem um partido, não é? Então, se tem um secretário de um partido, ele vai atender o vereador desse partido. Eu sinto muito, não deveria ser assim. Eu acho que todos os secretários têm que atender todos os vereadores. Pois todos estão trabalhando, fazendo o serviço deles. Tem que acabar com isso, são todos iguais. Não só eu passo por isso, mas todos os vereadores passam.
Nesses oito meses, você trocou de equipe algumas vezes e muitos dizem que você anda triste com o trabalho. É verdade?
Verdade. Muita coisa aconteceu lá atrás, as ameaças e tudo o mais. Outra coisa que me deixou triste foi a troca da equipe, pois dava muita confusão, um não se dava bem com o outro e eu tive que trocar. Eles trabalhavam muito bem, não tenho nada a reclamar; mas começou aquele "pipipi" e eu tive que tomar uma decisão. Eu tinha uma pessoa muito boa, que entendia tudo muito bem, não deixou mágoa nenhuma, trabalhou muito bem. Mas se eu deixasse eles lá, ia dar confusão. Isso me deixou triste.
Mas só isso?
Não, um monte de coisa aconteceu. Quando acontece as coisas com a gente, tem que guardar tudo e segurar aquilo, porque muita coisa aconteceu naquela sala (gabinete).
Este ano você passou por uma grande mudança de vida. Agora, convivendo dentro da política, algo te entristeceu nos bastidores?
O que deixa a gente triste são as coisas que a gente fica sabendo e a gente não pode falar. Eu pensei que era uma maravilha (fato de ser vereador). Eu era muito feliz quando eu trabalhava na Prefeitura, ia em qualquer lugar. Depois (da vitória), eu vi que a vida de vereador não era nada daquilo. Eu queria que fosse assim: se tem um problema no bairro, faz um ofício e consegue fazer. Eu esperava que todos os secretários atendessem os meus pedidos. O Boa Esperança, por exemplo, é um bairro carente que já sofreu por oito anos, e nunca sai nada nessa área. Minha tristeza é isso aí, pois todo mundo quer o melhor no bairro. Hoje, quatro secretários atendem meus pedidos. Já tivemos uma reunião com o prefeito e todos os vereadores falam disso. O problema é com todo mundo. Tem uma área aqui no bairro que eu sempre trabalhei para melhorar e eu tenho um documento aprovado para construir uma praça. Isso é do tempo do (José) Machado (ex-prefeito do PT). O secretário foi lá, tirou foto com os moradores e disse que ia sair. Aí o povo acreditou no secretário, só que não saiu até hoje. Agora, com esses secretários que nós temos, eu tenho certeza que o prefeito vai fazer alguma coisa por nós. Porque nós não vamos ficar mais oito anos com aquele buraco, que virou um piscinão. Só na região do bairro, tem mais quatro vereadores (Longatto, Carlos Cavalcante, Dirceu Alves da Silva e José Lopes). Se juntasse todos os vereadores, a gente faria alguma coisa, tem que ser um conjunto. Todo mundo falar a mesma língua.
Houve algum projeto em que você votou contra a vontade em função de alguma orientação de grupo?
Eu voto em função do partido, mas tem coisas boas do Paiva (José Antonio Fernandes Paiva, do PT) e do Trevisan (Laércio Trevisan, do PR) que eu votei sim também.
O que você pensa sobre as críticas que os vereadores receberam por Facebook?
Eu acho que essas pessoas não têm o que fazer e gostam de machucar os outros. Não tem consciência, não tem família. Elas deveriam procurar Deus, ou procurar fazer coisas boas. Se isso não acontecer, são elas que vão se machucar. É triste demais.
Você aumentou o salário depois que se tornou vereadora. Sua vida melhorou depois disso?
Eu passei a vida inteira recebendo R$ 800 ou R$ 900 por mês. Com esse dinheiro tinha que pagar conta de água, luz, imposto e eu fiz um empréstimo no tempo do João Herrmann (Madalena foi faxineira da casa do ex-prefeito) para construir meu barraquinho. Com aquele salário eu não conseguia fazer nada, então, quando dava, eu pagava o empréstimo e depois não deu mais. Ia pagando um pouquinho e depois não pagava. Quando eu ganhei a eleição, descobri que devia R$ 10 mil. Eu tinha um monte de conta atrasada e já tinha dito a Deus que no dia que eu ganhasse melhor ia pagar todas as dívidas. Quando eu ganhei, conversei com a minha sobrinha e pedi para ela administrar o dinheiro e pagar todas as contas. Ela me disse que ia demorar uns seis meses ou mais. Ainda estou pagando, mas graças a Deus paguei a maioria.

 Fonte: G1