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sábado, 17 de agosto de 2013

O dilema do cabelo - Liberdade de escolha e Imposição

Por: Alê de Mattos.

É magnifica essa capacidade que todo ser humano tem de raciocinar. 

Estava me arrumando pra ir pro trabalho, fazendo minha maquiagem corriqueira, e dando uma mexida no meu Black, que diga-se de passagem está cada dia mais lindo!

Fui fazendo isso e me lembrando de uma discussão a poucos dias, que tive com algumas pessoas  (e que sempre tenho, diga-se de passagem!) a respeito do cabelo da mulher preta, onde teve seu início por uma crítica minha ao novo visual da lindíssima e queridíssima Beyoncé.



Parece que a Diva, prendeu seu megahair em um ventilador de algum show e optou por retirar tudo e apresentou a todos seu cabelo... LISO.  Fiquei lembrando das palavras que foram proferidas em meio a discussão, gritando por liberdade de escolha e contra imposições. Eu ri. Ri, porque em se tratando de liberdade de escolha, e imposições nós quanto mulheres pretas sabemos, vivemos e sentimos os efeitos todos os dias. 

Me lembrei que quando eu era criança, eu tinha uma resistência natural do meu próprio couro cabeludo a produtos químicos. Na época, todas as mulheres pretas faziam uso de Henê, mas eu graças a Jah era alérgica! Minha mãe penteava meus afros no chuveiro com os saudosos Creme Rinse e Neutrox, fazia duas chiquinhas de onde brotavam inúmeras trancinhas com suas bolinhas coloridas na ponta. Na escola, meu cabelo era apelidado carinhosamente de “Bombril”, entre outras coisas bonitas pra uma criança preta ouvir, mas isso não chegava aos ouvidos de nenhum dos meus familiares. Na verdade eu não entendia muito bem o que estava acontecendo ali. Eu me sentia inferior a todos, mas não sabia o motivo, logo, não sabia expressar o que estava havendo.

Eu como criança preta, mesmo que alheia a minha vontade na época, me via isenta do direito de liberdade de escolha sem saber o significado dessa expressão. Estava eu crescendo num ambiente totalmente hostil, que me excluía socialmente pela minha estrutura física, pela cor da minha pele e pela textura do meu cabelo. Eu não era socialmente aceita. Eu não era socialmente bonita.

A imposição seguiu o rastro da exclusão e me colocava diante de programas infantis, cujas apresentadoras eram loiras e com cabelo liso. As bonecas com as quais eu brincava eram todas loiras, magras e de cabelo liso. Eu gostava de brincar próximo ao ventilador, para ver os cabelos das minhas bonecas voarem, porque aquilo pra mim era lindo demais. Cresceu em mim um sonho bobo de ver meus cabelos balançando como vento. E uma timidez excessiva causada pela própria opressão e baixa auto-estima. 

Aí dei um salto pra minha adolescência, onde me vi igualmente excluída dos padrões de beleza. Tudo era feito para um determinado “tipo de ser humano” e eu não me encaixava nos pré-requisitos. 

Minha irmã descobriu uma moça que fazia um tal de Permanente Afro. Era algo inovador, poucos salões tinham. Fui parar lá em Paciência pra fazer. Chorei horrores. Meu couro cabeludo, como sempre de maneira subliminar gritava “pare de me machucar e me respeite!”. Saía de lá sempre com várias feridas, que demoravam a criar cascas e fechar... Mas eu estava finalmente fazendo parte de um grupo. Na minha cabeça tinha deixado de ser excluída. 

Comecei a trabalhar num curso de informática em Madureira. Meus cabelos eram cacheados e trabalhados com química... Nunca fui desarrumada pro trabalho. Um belo dia o diretor do curso, me chamou em sua sala e disse: “Você precisa se arrumar. Vá tratar esse cabelo que parece que tomou chuva e não penteou”. Saí de lá chorando, fui a casa de um amigo e a mãe dele, uma mulher preta com uma auto-estima inabalável me disse: “Coloque tranças... você vai ver como você vai se sentir mais você mesma! Pare de usar químicas e assuma seu cabelo”. Eu fiz. Minhas tranças eram lindas e eu estava me sentindo linda. Fui pro trabalho achando que seria demitida (claro que não seria, pois assim estaria mais do que evidenciado o racismo), mas não fui. Fui muito elogiada por sinal.

Só que aí eu tirei as tranças. Mas as cobranças a respeito de meu cabelo continuavam.

Mais tarde, surgiu um “facilitador”. O relaxamento. Eu, aprendi a fazer sozinha e passava em meus cabelos. Não podia misturar a química, mas lá estava eu fazendo de tudo para que meu cabelo ficasse cada vez mais “apresentável”, afinal das contas, cabelo bom era cabelo liso! E eu que sempre odiei passar horas no salão pranchando e fazendo escovas, lá estava eu! Meu couro cabeludo já não aguentava mais... Mas eu, não queria saber! Como as antigas costumavam dizer: “Pra ficar bonita tem que sofrer!”.

Aí resolvi sofrer mesmo! Surgiram as escovas com formol. E adivinha? Lá estava eu, firme e forte, aplicando em meu cabelo. Até que meu couro cabeludo disse assim: “Ô cretina! Não tá vendo que tá me machucando? Não vai parar não? Então, paro eu!” E meu cabelo começou a cair! Entrei em desespero... Quanto mais eu lavava, mais cabelo caia, se eu penteasse então! Era absurda a quantidade de cabelo que perdi. Cortei ‘Joãozinho’. 

Depois disso, demorou uns 9 anos pra eu parar e definitivamente entender que o meu cabelo não é feio e que eu estava me submetendo a um padrão branco, apagando minha própria imagem, minha imagem verdadeira perante o mundo. Minhas características africanas eram para ser evidenciadas e não escondidas. Cada parte do meu corpo, cada mínima parte do meu corpo reflete minha essência. É o que eu sou e me desfazer disso, para ser aceita é a prova de que eu não me respeito.

Meus pensamentos viajaram a tal ponto que quando me vi, já estava dentro do metrô. Olhei para todos os lados e percebi que havia algo diferente. Eu estava dentro de uma propaganda de shampoo e condicionador de uma marca famosa. Todas as paredes do vagão onde eu estava eram propaganda desta marca e as modelos eram mulheres brancas, loiras e morenas e seus cabelos eram tão lisos que nem pareciam de verdade. Ah... A tal imposição! Estou com meus quase 33 anos e ainda estou excluída. Ao passo que olhava pras paredes todas estampadas com os produtos, as modelos e uma ‘forçação’ de barra imensa para que o padrão liso não se extinga, observei também as pessoas ao meu redor. Observei essencialmente as mulheres. Todas me olhavam. Todas com seus cabelos nitidamente esticados com muita química e chapinha. Mulheres pretas com seus cabelos lisíssimos olhavam pra mim como se eu viesse de outro mundo, enquanto passavam os dedos sobre seus fios torturados por todo processo assassino de sua essência. 

Liberdade de escolha, baseando-se num padrão de beleza branco pra mim é imposição. Liberdade de escolha onde mulheres pretas são excluídas de todas as esferas sociais, são diminuídas por olhares discriminatórios e estereotipadas em programas de tv, quando querem simplesmente deixar que seus cabelos tenham também liberdade, pra mim é imposição. Porque a verdade tem de ser dita: ninguém que alisa o cabelo gosta da textura do seu afro. E se não gosta da textura do cabelo que a natureza te deu, não gosta de si mesma. Mulheres pretas desde pequenas aprenderam que lidar com o afro é difícil, despende tempo, despende dinheiro e paciência, mas não ligam em ter seus couros cabeludos feridos, ter de gastar dinheiro com produtos “antifrizz” e gastar horas no salão de beleza para parecer com a modelo da propaganda de shampoo. 
 
Somos condicionadas a todo tempo a olhar pro nosso afro lindamente volumoso e caracterizá-lo como inadequado. Induzem a compra de cremes dos mais variados tipos, para reduzir o volume. E ainda tem a cara de pau de me dizer que vivemos num país que preza pela democracia racial e pelo respeito a diversidade.

Tudo o que eu vivi na minha infância/adolescência e ainda sofro na fase adulta, é a prova factual de que existe uma evidente fuga do racismo e de toda ojeriza que circunda as características de todo e qualquer indivíduo que possua características africanas. Vejo uma necessidade de imitar o europeu que ultrapassa os limites da lógica e do bom senso. Temos sangue africano e este, é ignorado veementemente. 

A imposição de alisamentos e de qualquer forma de desestruturação capilar é a manutenção continuada, porém extremamente maquiada, do auto-ódio. E o auto-ódio é um ensinamento racista para desestimular nossa crença em nós mesm@s.

"Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo?
Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele a tal ponto que você se alveja para ficar como branco.?
Quem te ensinou a odiar a forma do seu nariz e lábios?
Quem te ensinou a odiar você mesmo da cabeça aos pés?
Quem te ensinou a odiar os seus iguais? Quem te ensinou a odiar a sua raça tanto que vocês não querem estar perto uns dos outros?
É Bom você começar a se perguntar:
Quem te ensinou a odiar o que Deus te deu.?”
(MALCOLM X)



Finalizo meu texto, com esperanças de que mesmo com opiniões contrárias a minha, que mulheres (e homens também) pret@s parem um pouco pra pensar nos motivos que as levam a sustentar um discurso que não nos convém. Nos motivos que as faz achar que um discurso de elevação da auto-estima da mulher preta, evidenciando e valorizando nossas características naturais (e que são estas mesmas características que fazem de nós visivelmente descendentes de africanos e conseqüentemente vítimas em potencial do racismo), as fere diretamente. 

Mulheres pretas que assumem seus blacks são oprimidas pelo racismo e estereotipadas pela sociedade. Então, a tal liberdade de escolha não existe. Afinal, porquê temos de parecer com o branco? Reflitam


Beijos estalados.

Preta&Gorda.