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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sete práticas nocivas que a grande mídia apresenta ao falar sobre raça.

Tradução: Mpenzi Rocha, para +Preta Gorda 

1-    Individualizar o Racismo.


Isso reforça o equívoco comum de que o racismo é simplesmente um problema pessoal que deve ser resolvido por vergonha, punindo ou reeducando o ofensor individual. Essa crença muitas vezes leva a longos debates inconclusivos sobre o que está no "coração" do ofensor, e se tinha ou não a intenção de ser ofensivo ou discriminatório, e perpetua falsas noções de agência individual em nossa consciência nacional.

Talvez a característica mais comum de tratamento da mídia de histórias sobre raça e racismo é a parcela desproporcional de atenção que os episódios de nível individual de racismo recebem, ignorando uma análise mais profunda da injustiça racial sistêmica.

Enquanto a taxa de infrações pode variar muito, dependendo do assunto e da atenção dada pela mídia, tais desequilíbrios reforçam para os leitores a mensagem errada de que o racismo é essencialmente um fenômeno ostensivo de atos intencionais realizadas por pessoas preconceituosas.  Transgressões raciais, como o da Paula Deen, normalmente são apresentadas como defeitos simples e individuais que precisam ser corrigidos ou motivos de vergonha.


 2-    Falsamente igualando atos incomparáveis.


 Traçando um paralelo entre um ato ou expressão de preconceito racial de privilegiados brancos e de comparativamente desfavorecidos pessoas de cor, sem levar em conta as diferenças de poder entre os dois.

Isto fornece um pretexto para quem pretende absolver um indivíduo que tem expressado uma ideia racista ou cometeu um ato racista. Ela incentiva o público a aplicar um critério de cobertura “daltônica” sem reconhecer que os preconceitos dos brancos têm um impacto mais amplo e são reforçados por instituições e sistemas de poder de uma forma que os preconceitos das pessoas das comunidades negras não tem.


3-    Divergindo da Raça.


A prática de afirmar que outras identidades sociais, além da racial, como classe, gênero ou orientação sexual, são os fatores determinantes reais por trás de uma determinada desigualdade social. Esta lógica inibe a compreensão da interseccionalidade, promovendo uma em vez de ambas identidades enquadradas que é mais sociológica e historicamente precisa do que uma única identidade ou a análise não-racial.

O fato de que o público americano confortavelmente reconhece as desigualdades econômicas e ainda se opõem à ideia que a cor da pele vem a frente, destaca um sintoma de toda a sociedade de negação do racismo sistêmico. A natureza contraditória dessa negação, por exemplo, é visível na disparidade entre o tratamento do público sobre ações afirmativas e uma completa falta de discurso nacional em torno de admissões de legado¹, um processo que beneficia desproporcionalmente pessoas de brancas de classe alta.

4-    Retratando esforços do governo para igualdade racial como excessivos.



Representando os esforços do governo para promover a igualdade racial e inclusão como equivocada, desnecessária e/ou inadequada.

Enfraquece o apoio ao governo no seu papel significativo no desmantelamento do racismo sistêmico. Sugerem que o governo não está cumprindo seu real papel (ou seja, devia parar de infringir a liberdade individual branca)  e assim poderíamos ter um país "daltônico" uma vez por todas.

Ao questionar as decisões do próprio governo para agir em favor da igualdade racial, esta prática discursiva serve para manter as estruturas que perpetuam o racismo sistêmico, tudo em nome da liberdade individual para os brancos sobre uma sociedade justa para as pessoas negras.

5-    Destacando a intenção em relação ao impacto real no que diz respeito à Política.



Centrando-se mais sobre a intenção de uma política ou prática e muito menos sobre o impacto diário sobre as pessoas e comunidades negras.

Desvaloriza mais ainda os valores humanos e da própria vida de pessoas e comunidades negras que carregam o peso de implementação de uma política. Obscurece o papel do viés implícito na operação dessa política, e reforça o poder do medo branco na política e na tomada de decisões.

A grande mídia e os funcionários públicos, por vezes, optam por cobrir histórias através da prática do discurso que sobre a intenção de impacto. Esta é a prática de se concentrar mais na intenção de uma política ou prática e muito menos sobre o impacto diário sobre as pessoas e comunidades negras, que é absolutamente tudo. Para stop-and-frisk³, a intenção política é a segurança pública, mantendo crime baixo e mantendo as armas fora das ruas, que é onde o discurso racial dominante permaneceu, quando os representantes da mídia deixam de reconhecer o dano de políticas racialmente enviesadas em comunidades marginalizadas que auxiliam na proteção continuada dessas políticas dentro da consciência nacional e, portanto, a esfera pública de influência.

6-    Usando linguagem codificada.



Substituindo a identidade racial com termos aparentemente neutras que disfarçam animosidade racial explícita e /ou implicitamente.

Injeta linguagem que aciona estereótipos raciais e outras associações negativas sem o estigma do racismo explícito. Promove ansiedade e desumaniza os negros.

A grande mídia pode evocar uma imagem de um grupo de jovens negros simplesmente utilizando palavras como bandidos, meliantes ou cracudos². . Nestes casos, as palavras são aparentemente termos racialmente neutros, em vez dos identificadores explicitamente raciais. Para muitos, a palavra "cracudo" evoca a imagem de um grupo de jovens corpos preto e marrom.

Quando essa prática é utilizada, as noções que as pessoas e as comunidades negras são inerentemente criminosas e desumanas são propagadas. As noções de supremacia da humanidade branca são feitas concretamente. Consequentemente, o racismo sistêmico torna-se irrelevante em um discurso nacional que estridentemente é racista em sub texto, mesmo sem mencionar explicitamente a raça.

7-    Silenciando a história.



 Isola, em vez de ligar as presentes disparidades raciais, as oportunidades e as atitudes de seu contexto histórico. Resultando em entendimentos incompletos ou imprecisos das causas dessas disparidades, oportunidades e atitudes. Obscurece o caminho para iluminar o que as soluções são mais viáveis ​​ou justificáveis. Deseducam o público.

Se não podemos olhar para nós mesmos como uma nação, tanto no passado e no presente, e as formas em que os nossos valores "brasileiros" têm muitas vezes caído em contradição com nossas ações, nunca seremos capazes de avançar quadros e narrativas que levam a justiça racial e uma compreensão humana ou no funcionamento dos nossos sistemas sociais. Precisamos ser capazes de considerar as ferramentas de comunicação que nos permitem ver a nós mesmos como agentes ativos nos sistemas com os quais interagimos. Se não reconhecermos as vias de tomada de decisão e representantes da mídia que reformulam sistematicamente a nossa história, vamos continuar a funcionar sem um espelho da sociedade e a consequência potencial é que o nosso diálogo em torno destas questões permanecerá estagnada.


1 - É um tipo de preferência dada por uma instituição ou organização a certos candidatos, com base em sua relação familiar com ex-alunos da mesma.
2- Palavras utilizadas para aproximação das realidades psicológica e imaginária brasileiras.

3- É uma prática do Departamento de Polícia de Nova York pelo qual os policiais param e questionam centenas de milhares de pedestres por ano e os revista em busca de armas e outros contrabandos. As regras para parar, revistar e pergunta se encontram no Direito Penal Processual do Estado de Nova Iorque, seção 140,50. Das 684.000 pessoas que foram paradas em 2011, a grande maioria delas eram negras e latinas.