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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Resistência ao Racismo Velado





Por Paolla Menchetti
Suas cores, cabelos, gestos, vidas. Eles são resistência. Estou falando do povo preto .
Em São Paulo, do dia 12 ao dia 13 de julho, tive a honra de participar da oficina de juventudes negras, realizada pela instituição Friedrich Ebert Stiftung (FES), e pela primeira vez dialoguei com o movimento negro.
O caminhar das discussões são diferentes, as palavras tem forças que poucas vezes presenciei. Era um debate conduzido de maneira muito respeitosa. Foram dias de aprendizado e árduas discussões; pensar em políticas publicas para pretos é mais difícil do que pode parecer.
Esse povo que resistiu a anos de escravidão, sofre até os dias de hoje na pele suas consequências, as quais precisam ser retratadas. Mas a sociedade pouco entende sua divida histórica com essa população e erroneamente muitos dizem que cotas, entre outras medidas, são privilégios e que estamos subestimando a capacidade dos pretos. Pelo contrário, sabemos e referenciamos esse povo forte que resistiu e resiste às chacinas feitas contra aqueles que levam na pele a cor preta ou a dor de quem um dia foi obrigado a ser ferramenta de outros seres humanos. Atualmente, após 125 anos da abolição da escravidão, o povo preto ainda sofre suas consequências.
As mulheres pretas ganham menos do que os homens pretos e menos que mulheres brancas. A maioria dos seres humanos que sobrevive nas penitenciarias brasileiras são pretos e pardos, e quem sobrevive nas áreas mais desfavorecidas também são eles. Faça o teste do pescoço: olhe por todos os cantos, conte quantos pretos e pardos estão no ônibus, na rua, pedindo esmola no chão, nas favelas, vielas, nas salas de aula, no camburão. E nos hospitais como doutores?
E não venha dizer que a contagem falhou, pois a falha foi de nossos antepassados, que achavam que pretos e pardos podiam ser usados. Ainda hoje essa lógica se repete.
O tema principal a ser debatido na oficina era democracia e desenvolvimento sem racismo. A resposta pulsava em minha boca: “QUEBRA DO SISTEMA , PARA VIDA VALER A PENA”! Mas, como isso não pode ser política pública, coloquei na roda minha indignação, brevemente analisei a formação do racismo, que é algo ensinado de geração em geração.
Para quebrar esse ciclo deve-se fazer uma reestruturação na educação. Como quem “educa”a grande massa são as escolas e os monopólios dos meios de comunicação, políticas públicas para a reestruturação das grades curriculares nas escolas e a democratização dos meios de comunicação devem ser executadas.
O censo aponta que a população parda cresceu, mas que essa população não se reconhece como povo preto e não quer agregar na luta pelos direitos étnicos. Afinal, as mídias retratam mulheres e homens pretos como empregados domésticos, motoristas, entre outros cargos com salários desfavorecidos. As mulheres pretas, como a maioria das mulheres, são mostradas como objetos sexuais. Nas escolas só se falam dos pretos quando o assunto é navio negreiro; ah se contassem quem foi Nina Simone, Fela Kuti, Zumbi dos Palmares! Esses sim são alguns dos verdadeiros guerreiros, que não são citados nas salas de aula e que a mídia não mostra.
O dia terminou como nunca tinha visto uma plenária terminar. Os participantes leram poemas expressando suas dores e o prazer que foi estar naquela oficina, pois mais do que dias de discussões foram dias de partilha de vida.
Viver nessa sociedade regida pelo capitalismo já faz com que o racismo seja peça principal para a existência do sistema; pensar em sociedade sem racismo e sem patriarcado com o capitalismo é algo abstrato, porém possível. Que o tempo, não o tempo das máquinas, dos opressores, nem o tempo da forma que conhecemos, mas o tempo do universo, cure as feridas que foram causadas e nos dê tempo de ter vida .