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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Uma fábula colonial para tempos pós-modernos: a violência simbólica contra o homem negro na novela "em família"


Marcello Melo Júnior é um dos atores negros que admiro muito dentro do núcleo ainda muito insuficiente de negras e negros nas novelas da Rede Globo. A sua beleza e talento me chamou bastante atenção desde a primeira vez em que o vi encarnado em um personagem da penúltima novela de Manoel Carlos, aquela da grande polêmica levantada pela “Helena negra”, interpretada pela Taís Araújo. Hoje, Marcello Melo Júnior se destaca de forma interessante na novela Em Família, também de autoria de Manoel Carlos, com seu personagem Jairo, protagonista das cenas mais quentes, eróticas, agressivas e explosivas da teledramaturgia atual, manifestações muito preocupantes para a construção das representações imagéticas sobre os homens negros no imaginário popular.

Jairo insere-se na narrativa da novela Em Família de maneira muito obtusa. O personagem só faz sentido a partir do drama da personagem Juliana (Vanessa Gerbelli), detentora de uma espécie de complexo materno obsessivo agravado por suas dificuldades em engravidar de seu marido Fernando (Leonardo Medeiros). Juliana apaixona-se loucamente pela filha de sua empregada e faz de tudo para adotá-la. A empregada morre misteriosamente no hospital após um acidente de trânsito, e aí que a obsessão de Juliana em adotar a menina começa a tomar proporções maiores. O personagem Jairo, que é marido da empregada, a partir de então é introduzido de maneira efetiva na trama, gerando situações bem estranhas:

1) Jairo tenta estabelecer uma negociação entre Juliana e sua sogra, praticamente vendendo a criança como uma coisa. A negociação não ocorre da maneira prevista por Jairo e Juliana, fazendo com que a avó da criança descubra o esquema e tome a criança para si;
2) Juliana entra em uma profunda crise conjugal com seu marido, o que provoca a separação do casal. Após essa crise, Juliana resolve se aproximar de Jairo e seduzi-lo para, através de uma relação afetivo-sexual, se aproximar novamente da criança.
3) Juliana acaba se casando com Jairo por conta de sua ambição pela guarda da criança, mas começa a se interessar pelo comportamento de Jairo, marcado principalmente pelo seu ótimo desempenho sexual;
4) Juliana tenta várias vezes mudar o comportamento de Jairo, incisivamente marcado por sua identidade de favelado e malandro, tentando adaptá-lo aos padrões da elite carioca. Mesmo com tantas tentativas, Jairo resiste fortemente, sempre causando tensões e conflitos;
5) Jairo consegue engravidar Juliana, porém começa a desafiá-la a morar na favela por não conseguir adaptar-se ao padrão de vida da elite carioca; a filha se torna mais uma vez objeto de barganha entre os dois, gerando outros conflitos e tensões através de uma conexão tênue entre a favela e o Leblon, até os capítulos atuais.

Acredito que esse não é o melhor release do que vem acontecendo em relação ao personagem do Marcello Jr., o que evidencia que não sou tão noveleiro assim. Mas tais situações que consegui captar me fizeram refletir muito sobre tal arquétipo de homem negro proposto por Manoel Carlos na novela em questão. Utilizando as situações enumeradas acima, posso pensar tal arquétipo da seguinte forma:

Manoel Carlos representa o homem negro através do personagem Jairo como um homem corrompido, sem caráter e princípios éticos, “típico” indivíduo engendrado pelos territórios periféricos e suburbanos nos quais há “ausência de valores humanos”. A partir do imaginário de Manoel Carlos, homens negros são isentos de humanidade ou detentores de uma humanidade aleijada, argumento simbolizado pelo ato de Jairo de negociação e quase venda de sua filha. A malandragem se torna o código de ética adotado pelo personagem, estereótipo muito frequente quando se referem aos homens negros cariocas: aquele que sempre se dá bem, custe o que custar;

Além de desumanizado, o homem negro através do imaginário de Manoel Carlos apresenta aspectos instintivos e irracionais, presentes na hipersexualidade e agressividade exacerbada do personagem Jairo. Há uma frequente superexposição do corpo de Marcelo Jr. e grande exploração do sexo e erotismo nas cenas exibidas. Jairo sempre resolve seus conflitos com Juliana através da violência ou do sexo. Há uma naturalização simbólica de tais aspectos ao homem negro, que sublimam e negligenciam seus poderes cognitivos e racionais inerentes a qualquer ser humano;

Juliana consegue engravidar por conta da fertilidade de Jairo, algo considerado inerente à biologia sexual do homem negro. No imaginário coletivo, homens negros são férteis e procriadores, como bois e cavalos de raça. Manoel Carlos praticamente evoca o sórdido papel social do Brasil Colonial do escravo procriador para construir uma esperança atrofiada para a cura do complexo materno de Juliana;

Jairo é o símbolo maior da incivilização e selvageria, contidas e amenizadas pelas tentativas de Juliana de reeducação e disciplinarização de Jairo. A problemática atual da trama de Jairo revoltar-se com a vida no Leblon e retornar a morar na favela é uma mensagem subliminar de Manoel Carlos de que os homens negros, como a população negra de modo geral, deve permanecer em seus devidos lugares, propagando um discurso de normativização social. A personagem Juliana de certo modo sofre as “consequências” de ter desafiado as regras da sociedade e de ter provocado uma espécie de “promiscuidade social”. Tudo pelo desejo de ser mãe, o “destino” de toda mulher...

Assim, a novela Em Família para mim se torna uma tragédia teledramática, pois além de sedimentar no imaginário coletivo os mitos e estereótipos acerca do homem negro, engendrados e propagados historicamente em nossa sociedade fortemente marcada pelas experiências do colonialismo e do trabalho compulsório africano, propaga imagens do mesmo como a antítese monstruosa do ideal de humanidade, que seria o homem branco. Os jogos de representações entre o homem branco e o homem negro são movidos e direcionados pelo etnocentrismo, mecanismo de manutenção da hegemonia do poder do primeiro sobre o segundo, como também dos binarismos racistas que os opõem. Tais jogos engendram mitos e estereótipos que alvejam em profundidade todas as dimensões físicas e psíquicas do homem negro, principalmente sua sexualidade, aspecto fundamental e privilegiado em sociedades patriarcais e falocêntricas como a nossa. Homens negros na visão dos “negrófobos”, como diria Frantz Fanon, são hipersexuais por possuírem uma humanidade atrofiada, deficiência adquirida por sua selvageria e exotismo, dentre outros inúmeros aspectos essencialistas confeccionados na experiência colonial do trabalho forçado africano. Assim, a humanidade do homem negro é minimizada e sintetizada, principalmente a partir de seu corpo, caracterizando um exercício de reducionismo: suas características étnico-raciais fenotípicas, biológicas e culturais serão as evidências que comprovarão sua inferioridade, naturalizada pela perpetuação dos mitos e estereótipos acerca do homem negro nos discursos racistas através dos tempos.

Ou seja, Manoel Carlos criou uma fábula colonial para tempos pós-modernos. É uma pena um ator maravilhoso como Marcello Melo Júnior interpretar um papel que violenta de maneira impactante as nossas afro-masculinidades e angustia nosso mal estar nessa diáspora sem-fim.

Daniel Dos Santos é professor e historiador, licenciado pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) – Campus V, Membro Fundador e Pesquisador Residente do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Africanos e Afrobrasileiros (AFROUNEB).