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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Questione-se! Revolte-se!



Observando as movimentações acerca dos acontecimentos, vim pensando hoje no caminho do trabalho, em que ações reais deveríamos tomar em relação a tudo isso que nos acomete,  o racismo. 

Vim, inocentemente me questionando sobre quando, de fato, o racismo no Brasil, será levado a sério e tratado como deve ser: crime inafiançável. Há, sobretudo, uma revolta no ar... O que gira em torno a este questionamento é uma vontade absurda de gritar que EU ESTOU AQUI, SOU MULHER PRETA E QUERO SER RESPEITADA! Estou cansada! 

Estamos atolados de casos repetidos, sofremos pelo mesmo motivo, pelo mesmo motivo somos humilhados e preteridos. Segregados. Sim, existe ainda segregação racial no Brasil, matemático para constatar o óbvio: se numa empresa de grande porte, a soma dos funcionários brancos for maior que a dos funcionários pretos, há discriminação racial, há preconceito de cor, há separação entre brancos e pretos. Há segregação. Há racismo.

Penso, na fanfarronice que está sendo feito ao redor do caso do goleiro Aranha, o qual tenho total respeito e admiração, mesmo sendo pouco conhecedora de seu trabalho quanto profissional do futebol. O admiro pelo homem preto que é: reto, sem curvas... Que não se projetou junto à mídia pra pagar de "cool", sobrepondo a sua própria dor e a de seus irmãos. O cara está plenamente ciente de que ele não é respeitado. É tolerado. Tolerado, pois está na mesmo nível financeiro que o branco, pode jogar e argumentar contra ele, usando as mesmas armas que o branco racista utiliza para o diminuir. O preto é consciente.

O que não é consciente é todo esse teatro que se fez, colocando a racista torcedora do Grêmio obter da noite do dia ares de "princesa branca de neve". O que de verdade não é consciente é toda essa comoção social, se apiedando da "pobre mocinha branca, levada pela onda do fanatismo futebolístico". A sociedade pira ao dizer "Gente, ela pediu perdão! O que mais vocês querem?". Como pode um CRIME ser tratado com menos peso que os demais?

 Peraí gente... O que fazem com os caras que assaltam aqui no Centro do Rio de Janeiro? Tem uma galera saindo do trabalho e metendo a porrada neles... Exigindo prisão, justiça. Quando alguém mata um parente seu, a primeira coisa que você reivindica é justiça, porque aqui no Brasil, matar, assaltar, furtar, sequestrar, estuprar é crime. Racismo também o é... Então porque as pessoas tentam banalizá-lo? 

Racismo não é um pisão no pé que se repara com um simples pedido de desculpas. Estou farta das pessoas pedindo desculpas o tempo todo e não sendo punidas.  Farta de sempre estarmos dizendo as mesmas coisas por séculos e não sermos ouvidos. 

Temos uma mídia que só denuncia racismo quando é conveniente.  A Rede Globo com seus programas, novelas coloca o preto como vilão, como subalterno, expõe os corpos das mulheres pretas afim de vender essa imagem pro estrangeiro... Que no Carnaval invade o país em busca de turismo sexual. Esse "Sexo e as Negas" do Miguel Falabella é o exemplo disso. Falamos, denunciamos e ele manda uma resposta imbecil e tenta nos colocar como algozes de sua obra.

É, o racismo tem dessas. Nos transforma em vilões e nos convence de que a nossa luta é vã.

Qual é o problema dessa gente? 

SBT não manda a jornalista embora, contrata Danilo Gentilli e dá a ele oportunidade de fazer as mais imundas piadas racistas em rede nacional. Lembrando que Silvio Santos é judeu né... E devido o holocausto, como todo bom judeu, não permite que se fale da comunidade judaica ou de qualquer momento da história do holocausto de maneira desrespeitosa. E as pessoas respeitam isso. Agora, alimentar o racismo contra pret@s, pode? E ninguém fala nada? Ninguém bota esse imbecil que se diz comediante na cadeia porque?

Porque vivemos numa sociedade hipócrita. Vivemos numa sociedade que cospe aos quatro ventos que não é racista, mas é condescendente a casos de racismo explícito. Não se move para mudar esse quadro, porque foi acostumada que a condição d@ pret@ é essa e nunca deverá mudar.

Que mídia é essa que faz o que bem entende? Que mídia é essa que impõe suas vontades sobre as nossas, como se não existíssemos. Como pode a gente aqui de fora se esgoelar, berrar que não estamos sendo representad@s desta forma e sermos tratados como ignorantes? A quem foi dado o direito do branco determinar o que é bom e o que não é para a comunidade preta? 

Estamos no meio de um problema sério, onde as pessoas dizem que não são algo que sambemos que são. Não admitem e não permitem que você questione o que elas despejam sobre você. Colocam pretos e pretas em menor número em todos os seguimentos profissionais, como se estivessem fazendo um favor à nós quanto comunidade. Gente... Não é direito nosso estar lá? 

E as Cotas? Já não é lei? Qual é o problema dessa gente em ficar ainda discutindo esse assunto? Que despeito é esse e que falta de respeito com a luta dos outros quando? Quem a sociedade branca racista pensa que é para declarar que um cotista é vagabundo? Alguém se deu ao trabalho de ler o estatuto?

Ai, gente... Esta não é minha condição. Eu não sou o que a TV mostra. Eu não sou o que a sociedade quer. Eu sou mulher preta, com voz e cérebro. Sou descendente de Zumbi e Dandara. Não me curvo diante as determinações sociais, pois estas não observam as minhas necessidades. Eu determino o que eu quero e o que eu vou fazer. Determino que caminho eu trilho. 

E digo: A justiça um dia olhará verdadeiramente para nós. Mas, ainda temos um caminho árduo para seguir. Com tanta gente determinando o que vestimos, o que comemos, a forma dos nossos corpos e cabelo, o que usar para pintar o rosto e quando devemos falar ou calar... Com toda essa discrepância de valores, aonde eu devo me encaixar?

O que eu preciso fazer para que as pessoas realmente me ouçam? Será que elas querem realmente me ouvir?

Fica aí o silêncio como resposta.

Alessandra de Mattos.
Preta&Gorda.