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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Carta a Maurício Campos, com vista a Juventude Negra militante neste mês da Consciência Negra. - Por Yedo Ferreira.

Por Yedo Ferreira.

Segunda Carta
20 de novembro de 2014.

Ao prosseguir relatos da carta anterior, é importante começar com um fato da FNB, relato por José Correia Leite, referente a um dos irmãos; Veiga dos Santos; o isaltino, pessoa que ele não tinha nenhum apreço.
Meses depois do término da Guerra Civil constitucionalista de 1932, Isaltino foi expulso da FNB, fato que desagradou profundamente Arlindo, que em solidariedade ao irmão, renunciou ao cargo de Presidente, dando outro rumo a sua vida. O contrário fez Isaltino, depois de um certo tempo afastado da militância, conseguiu emprego no Jornal, A Platéia, editado por comunistas.
O Isaltino, na Frente Negra era Secretário Geral – depois que foi expulso do cargo passou a ser exercido por Francisco Lucrécio – e como secretário geral “publicava circulares agressivas contra o regime capitalista” e mais tarde, no jornal, A Platéia ao assinar um manifesto em apoio a revolta Comunista que veria a ser realizada em 27 de novembro de 1935, acusado como comunista, acabou sendo preso indo para o Presídio Maria Zélia.
Um fato que deve ser ressaltado, quando se acusa de que na frente Negra Brasileira haviam “tendências fascistas” e que, segundo Maurício Campos, “as fontes citadas e seus registros” são confiáveis, reside que; Isaltino Veiga dos Santos, o principal fundador da Frente Negra Brasileira e sem ele, segundo Correia Leite, a FNB não existiria, é que, como ex-dirigente da FNB foi ele o único a ser preso naqueles anos conturbados. Neste caso pode-se concluir que, segundo as “fontes citadas”, se haviam “tendências fascistas” na FNB, haviam também tendências comunistas.
O fato é que Arlindo Veiga dos Santos como Presidente da FNB é acusado de ter posições de direita e ser prepotente na direção da mesma, ser simpatizante dos métodos hitleristas, ter aproximação com o integralismo, adotar em artigo publicado no jornal “Voz da Raça” – órgão oficial da FNB – lema integralistas: Deus, Pátria, Raça, Família.
Em maio de 1938 – seis meses depois da implantação do Estado Novo com Getúlio Vargas e supressão dos partidos políticos, inclusive a Ação Integralista Brasileira – aconteceu o Levante Integralista, nome da luta armada dos integralistas contra o Governo Getúlio Vargas. Na reação do Governo muitos foram mortos e milhares presos. Hoje 2014, existe o Levante Popular da Juventude formado com jovens de partido de esquerda; PT, PC do B, PSOL, etc. e, Maurício Campos não vai dizer que são jovens integralistas e do nome da ação Levante, mudaram de Integralista para Popular.
O curioso em tudo isto é que nenhum filiado da Associação dos negros Brasileiros (ANB) – nome que substituiu o de Frente Negra Brasileira (FNB) depois de seu fechamento pelo Governo Vargas – estava entre os mortos e presos integralistas. Ao que se sabe, Arlindo Veiga dos Santos não foi sequer molestado pelos órgãos de segurança e muito menos o Presidente da ex-FNB, Justiliano Costa e o Secretário Geral, Francisco Lucrécio ou qualquer outro membro da FNB, inclusive a sede da ANB onde se reuniam os membros da ex-FNB depois que a mesma tinha sido dissolvida.
Como pode observar Mauricio Campos, os fatos falam por si só assim sendo, penso eu que “as fontes citadas e seus registros” não foram corretas. Há manipulação dos registros ou trabalho de campo mau executado, se é que algum foi feito por Laiana Lannes e André Cortes.

Na verdade não há porque polemizar quando trabalho acadêmico gera desconfiança sobre sua lisura em razão de erro ou equívoco cometidos, sobretudo quando o objeto de estudo é o negro ou a questões a ele diretamente relacionadas.
A respeito de casos como esses temos os do economista Celso Furtado que confessou seu equívoco num dos seus trabalhos acadêmicos sobre o Ciclo do couro no Brasil colonial. O mesmo ocorreu com Florestan Fernandes, sociólogo, no seu Ensaio, A Integração do Negro na Sociedade de Classes, com Luiz Aguiar Costa Pinto, sociólogo, no seu livro, O Negro no Rio de Janeiro, trabalho de pesquisa para a UNESCO coordenada por Arthur Ramos, não foi diferente, assim como de outros que não há nenhum interesse, de minha parte, aqui relacioná-los.
O fato de se está sendo enfático em relação a Arlindo Veiga dos Santos pelas acusações que recebeu de ser integralista, adepto dos métodos nazista – hitlerista mais precisamente – o que em decorrência levou a FNB a “Ter momentos de tendência fascista”, não é a defesa dele em si mesmo – embora acusações não sejam verdadeiras – a defesa é de um período da história de lutas dos negros para se libertarem das péssimas condições de vida a que foram relegados depois da Abolição da Escravidão e sobretudo nos primeiros anos de instalação da República no Brasil.
O importante é ser, esse período no qual Arlindo Veiga dos Santos dele fez parte, referencial de uma continuidade histórica que não ocorreu, como reconheceu Florestan Fernandes aqui citado. Continuidade histórica que infelizmente não ocorreu, mas que hoje alguns negros procuram dar.
O pensamento mais competente sobre Arlindo Veiga dos Santos, a meu juízo, tem-se o de José Correia Leite que com ele teve sérias divergências com envolvimento de órgão de segurança de São Paulo.
A respeito de Arlindo Veiga dos Santos disse Correia Leite: “O Arlindo, apesar das idéias dele, era um sujeito de moral e coerência. Muito respeitado e de uma linha excepcional.” Em outro momento, Correia Leite sobre Arlindo Veiga dos Santos haveria de dizer: “O Arlindo não era integralista, ele era patrionovista.”
Os anos 1920/1930, as ideologias das mais diversas proliferavam em todo o mundo e nessa décadas com maior intensidade. O patrionismo, embora tendo o seu aparecimento em décadas passadas, não esteve menos intenso no Brasil do que demais idéias políticas, sociais e nacionais.
O patrionismo era idéias monarquistas de pessoas que por um motivo ou outro estavam desiludida com a republica e portanto esperavam ver a monarquia como regime político ser estabelecida no Brasil. Uma vez que a República derrubou a monarquia exilando a Princesa Isabel considerada pela maioria dos negros da época como a “Redentora” por ter abolido a escravidão no Brasil, é compreensível que muitos negros – entre eles Arlindo Veiga dos Santos – não fossem republicanos.
O negro, na sua maioria, tinha a República como responsável pela Princesa Isabel ter sido (expulsa) do Brasil e também responsável pelas condições de vida nas quais se encontravam em razão de que na sociedade do trabalho daquele regime político republicano, a prioridade era dada ao imigrante europeu para sua inserção no Mercado de Trabalho.
Assim o negro que não tinha nenhum apreço pela República dos quarenta anos depois da Abolição da Escravidão, assistiu a sua derrocada imposta pela revolução de 30 com alegria e mais ainda, com a lei que proibia a imigração subvencionada na qual o trabalhador europeu era o único beneficiado.
O primeiro decreto da Revolução de 1930, datada de 28 de outubro, mais tarde chamada Lei dos 2/3, assinada por Getúlio Vargas, era titulada; Proibição da Imigração Subvencionada e Organização do Trabalho. Esta Lei estabelecia que em toda a sociedade do trabalho, 2/3 tinha que ser ocupada por brasileiro nato e uma vez que o negro tendo a nacionalidade de brasileiro, se olhava como beneficiário pela mesma e como em certo sentido aconteceu. O fato da Frente Negra Brasileira ter ficado ao lado de Getúlio Vargas na Guerra Civil de 1932 está explicado por esta lei dos 2/3.
Mais a Lei dos 2/3 que permitia a entrada do negro no mercado do trabalho foi duramente combatida pelos sindicatos dos trabalhadores, a época dirigidos por imigrantes europeus anarquistas italianos e comunista. É previsível que a polêmica envolvendo a Lei dos 2/3, que para alguns era discriminação contra o estrangeiro, para outros, a imigração de trabalhadores europeus era absurdo o Brasil ajudar a Europa, a solucionar seu problema de excesso de mão de obra e criar para o Brasil, problema com acumulação de um grande contingente de trabalhadores, onde, no mercado formal do trabalho, vigorava um processo seletivo com base na cor de pele do candidato.
A polêmica da Lei dos 2/3 – não há como negar – colocou em evidencia a invisibilidade do negro, muito comum no Brasil da época, assim surgiu uma determinada idéia nacionalista, sem ser xenofóbica, onde seus propagadores acreditavam que para o Brasil ser uma nação, o negro e o indígena tinham que está INTEGRADOS na sociedade de classes.
As idéias de integração social, conhecidas como Integralismo propagadas por Plínio Salgado e Gustavo Barroso ganharam adeptos entre pessoas de vida pública como: Seabra Fagundes, Roland Corbisier."

Fonte: Postagem original, no Facebook.