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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

UMA MENSAGEM PARA MINHAS IRMÃS

Por: Assata Shakur
Tradução: Gilza Marques
Tradutores Negros Julho/2015 (tradutoresnegros@gmail.com)
Texto original disponível em: http://www.assatashakur.org/



Nesse momento eu gostaria de dizer algumas palavras especialmente para minhas irmãs. IRMÃS, O POVO NEGRO NUNCA SERÁ LIVRE A MENOS QUE AS MULHERES NEGRAS PARTICIPEM DE CADA ASPECTO DA NOSSA LUTA, EM TODOS OS NÍVEIS DA NOSSA LUTA1 . Eu acho que as mulheres Negras2 , mais do que ninguém na face da terra, reconhecem a urgência da nossa situação. Porque somos Nós3 que ficamos, diariamente, face a face com as instituições de nossa opressão. E porque somos Nós que temos tido a maior responsabilidade de criar nossas crianças. E somos Nós que temos que lidar com os sistemas de assistência social que não se importam com o bem-estar das nossas crianças. E somos Nós que temos que lidar com os sistemas educacionais que não educam nossas crianças. Somos Nós que temos que enfrentar as professoras racistas que ensinam nossas crianças a se odiarem. Somos Nós que temos vistos os efeitos terríveis do racismo em nossas crianças. EU SÓ QUERO UM MOMENTO PARA EXPRESSAR MEU AMOR POR TODAS VOCÊS QUE ARRISCAM SUAS VIDAS DIARIAMENTE LUTANDO AQUI E NAS LINHAS DE FRENTE. Nós, que temos assistido nossa juventude envelhecer, tão cedo. Nós que temos assistido nossas crianças chegarem em casa com raiva e frustradas e visto elas crescerem mais amarguradas, mais desiludidas com o passar de cada dia. E Nós que temos visto a doença, o olhar assustado nas faces de nossas crianças quando elas compreendem totalmente o que significa ser Negro4 na Amérikkka5. 

E Nós sabemos o que é privação. Quantas vezes Nós ficamos sem a tarifa de ônibus, dinheiro do aluguel, dinheiro da comida e quantas vezes nossas crianças tiveram que ir para a escola com roupas de segunda mão6 , com buracos em seus sapatos. Nós sabemos o buraco infernal que a Amérikkka é. Nós ficamos com medo de deixar nossas crianças saírem pra brincar. Nós ficamos com medo de andar nas ruas à noite. Nós, irmãs, Nós vemos nossos jovens, os bebês que trouxemos para este mundo com tantas esperanças, Nós temos visto seus corpos inchados e doloridos por drogas, marcados e deformados por buracos de bala. Nós sabemos o que é opressão. Nós temos sido abusadas de várias formas imagináveis. Nós temos sido abusadas economicamente, politicamente. Nós que temos sido abusadas fisicamente, e Nós temos sido abusadas sexualmente. E irmãs, Nós temos uma longa e gloriosa história de luta nesta  Mulheres Afrikanas7 eram guerreiras fortes e corajosas muito antes de Nós virmos acorrentadas para esse país. E aqui, na Amérikkka, nossas irmãs têm estado nas linhas de frente. Irmã Harriet Tubman liderou na estrada de ferro subterrânea8 . E irmãs como Rosa Parks, Fannie Lou Hammer, Sandra Pratt e nossa Queen Mother Moore9 deram continuidade a isso. Irmãs, Nós temos sido a espinha dorsal de nossas comunidades, e nós temos que ser a espinha dorsal da nossa nação. Temos que construir unidades familiares fortes, baseadas em amor e luta. Nós não temos tempo para brincar.

UMA MULHER REVOLUCIONÁRIA NÃO PODE TER NENHUM HOMEM REACIONÁRIO

Se ele não é da libertação, se ele não é da luta, se ele não é da construção de uma nação Negra forte, então ele não é de nada. Nós sabemos como lutar. Nós sabemos como lutar e ser astutas para sobreviver. Nós sabemos o que significa, irmãs, lutar com unhas e dentes. Nós sabemos o que significa lutar com amor. Nós sabemos o que é unidade. Nós sabemos o que é irmandade. Nós temos sido sempre gentis umas com as outras, comprado sopa quente e biscoitos umas para as outras. Nós temos nos ajudados nos momentos difíceis. Irmãs, Nós temos que celebrar a mulheridade Afrikana. Nós não queremos ser como Miss Ann10 . Ela pode manter seus cílios postiços e sua falsa, espoliada imagem de mulheridade. Ela pode manter sua mink stole11 e sua mobília provincial francesa. Nós vamos definir por nós mesmas o que é mulheridade. E Nós vamos criar o nosso próprio estilo e nossas próprias formas de se vestir. Nós não podemos ter um homem branco na França dizendo às mulheres Afrikanas como aparentar. Nós vamos criar nosso próprio jeito New Afrikan de viver12. Nós vamos criar nosso próprio jeito de ser e viver nossa própria cultura New Afrikan, pegando o melhor do antigo e misturando com o novo. IRMÃS, NÓS TEMOS QUE TOMAR O CONTROLE DE NOSSAS VIDAS E DO NOSSO FUTURO EM QUALQUER LUGAR QUE ESTEJAMOS. E NÓS TEMOS QUE NOS ORGANIZAR NUM CORPO FORTE DE MULHERES AFRIKANAS.


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1 Mantivemos a formatação do texto original. 
2 Do original Black. Optamos pelo uso do termo “Negra”. 
3 Ao longo do texto, o pronome “nós” (no original We) é escrito sempre em maiúsculo, sendo utilizado como marcador da valorização dos valores e da luta coletivos defendidos pela autora. 
4 Dentre as características estéticas dos textos de Assata Shakur, está o uso de letras maiúsculas a fim de marcar a importância de determinadas palavras/conceitos.
5 Do original Amerikkka. A escrita com k triplicado é uma referência à Ku Klux Klan (KKK), organização racista e protestante norte americana que prega ódio aos negros e a supremacia branca especialmente no sul dos Estados Unidos (EUA). 
6 Do original hand-me-down clothes. Tradutores Negros, Julho/2015 terra/planeta. 
7 Do original Afrikan. A escrita de África com „k‟ tem vários significados. Um deles é o reconhecimento de que “África” não é o verdadeiro nome do continente. 
8 Harriet Tubman (1822-1913) foi uma abolicionista negra norte-americana. Nessa passagem, Assata Shakur se refere a um das ações de Tubman: a libertação de dezenas de escravizados e escravizadas através de uma estrada de ferro subterrânea em Maryland, EUA. 
9 Mulheres negras referência na luta antirracista norte-americana: Rosa Parks (1913-2005), Fannie Lou Hammer (1917- 1977), Sandra Pratt (? – 1971) e Queen Mother Moore (1898-1997). 
10 Expressão utilizada nas comunidades negras norte-americanas para se referir a mulheres brancas arrogantes e condescendentes em suas atitudes para com os negros e negras. 
11 Mink Stole é o nome artístico de Nancy Paine Stoll (1947), atriz branca norte americana. 
12 Do original New Afrikan way of living. Proposição de um “novo jeito afrikano de viver” em contraposição ao American way of life”, ou jeito americano de viver.

GN [Assata Shakur foi ativista do Partido dos Panteras Negras e  está incluída na lista de terroristas procurados pelo FBI, enquanto nenhum branco que tenha em suas mãos sangue de homens e mulheres pretos e pretas, sequer foi julgado e que dirá, preso. Todos os crimes cometidos pela KKK e continuados por seus atuais seguidores (pois ela ainda existe), foram silenciados.].